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Grupo de Estudos Sociais, Tiflológicos e Associativos

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COMISSÃO DE BRAILLE

DO BRAILLE À BRAILLOLOGIA

NECESSIDADE DE FORMAÇÃO BRAILLOLÓGICA

Por

F. P. Oliva

2000
LISBOA

Logotipo da Comissão de Leitura #Link Contactos.

[fim da capa]

Ficha Técnica:

Título: Do Braille à Braillologia
Necessidade de Formação Braillológica

Autoria: F.P. Oliva
Impressão: Gráfica 2000
R. Sacadura Cabral, 89-91 A 1495 Cruz Quebrada

Data de impressão: Novembro de 2000

Depósito Legal Nº: 158712/00
ISBN: 972-98660-1-5

SUMÁRIO

Advertência 4

1. Introdução 5
2. Do Braille à Braillologia 6
Notas 8
3. Braillologia 10
Notas 12
4. Necessidade de Fonnação Braillológica 14
Notas 15
5. Propostas de Recomendações 16

ADVERTÊNCIA

Este texto, ora editado por iniciativa da Comissão de Braille, corresponde quase integralmente ao que escrevemos para propor à Conferência Ibero-Americana de Braille (Buenos Aires 1999), onde apresentámos a Biblioteca Nacional e a Comissão de Braille, texto que foi seleccionado pela comissão científica da Conferência para ser integrado no programa, no tema El Sistema Braile y Ia Educación. Formación del Personal.

Foram revistas algumas passagens no sentido de lhes conferir maior clareza e foi também mais amplamente contextualizada a parte #5, referente às propostas de recomendações, a fim de proporcionar algum eco do acoIhimento que o trabalho mereceu da Conferência e permitir perspectivar a forma como está reflectido nas «Resoluções e Conclusões» aprovadas.

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1. INTRODUÇÃO

É bem conhecida de muitos de nós a afirmação segundo a qual «o braille é o meio natural de leitura e escrita para os cegos». Sustentam-na, principalmente, acreditando-a com a sua autoridade por esse mundo fora, as comissões nacionais de braille, os organismos transnacionais que se ocupam do braille por áreas linguísticas, as conferências e os congressos internacionais que há mais de 120 anos se vêm reunindo para o mesmo fim, além de muitos estudiosos, investigadores e outros peritos, que se têm ocupado dos diversos aspectos das várias vertentes da problemática do braille.

Por outro lado, também muitos de nós não ignoramos a queixa, infelizmente ouvida com insistência crescente a tantas instituições que defendem os interesses dos cegos, de que o braille se utiliza cada vez menos e se usa cada vez pior. Não falta mesmo, entre alguns dirigentes e professores normovisuais do ensino integrado, que mais parecem defender os interesses de alguns videntes, quem tenha já decretado a sentença, alegadamente irreversível, da morte irremediável do braille, tanto mais que, dizem eles, já pode ser substituído com vantagem, por um lado pelo livro em cassete áudio e, por outro lado, pelos sintetizadores de voz.

Qual será a causa destas posições antagónicas? Que poderemos e deveremos nós fazer para que os cegos possam vir a usufruir, em plenitude, dos benefícios que as potencialidades do braille, de facto, lhes podem proporcionar? O objectivo deste trabalho vai consistir precisamente numa tentativa para ajudar a encontrar as respostas para estas perguntas e, com base nessas respostas, procurarmos descortinar o caminho para restituir ao uso do braille o carácter de pertinência e o grau de utilidade que as possibilidades deste código encerram, e combater assim a braillofobia e o analfabraillismo que ela arrasta, em favor duma efectiva e eficiente alfabraillização.

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2. DO BRAILLE À BRAILLOLOGIA

Há muito que o braille, que alguns, felizmente poucos, também se lembraram de denominar «anagliptografia», deixou de ser apenas um código elementar para leitura e escrita táctil, com os seus 63 caracteres formados por pontos em relevo, ensinado com pouca ou sem nenhuma orientação pedagógica, escrito e até mecanografado por processos pouco mais do que artesanais. Ao longo das décadas de implantação rio contexto tipográfico até se impor como o «meio universal de leitura para os cegos», já depois da primeira metade do século XX, o braille fixou definitivamente o seu quadro de caracteres e viu aperfeiçoar-se e diversificar-se o material para escrita passando até a ser também impresso (nota 1), ao mesmo tempo que a representação braillográfica se ia estendendo a outras áreas linguísticas e alargando a novos domínios gráficos.

Posteriormente, distanciando-se dos processos elementares dos primeiros tempos, o braille viu os métodos de ensino começarem a aperfeiçoar-se, viu a produção de livros incrementada em resultado da construção de equipamento de impressão cada vez mais aperfeiçoado e do contributo de grande número de copistas voluntários, viu as bibliotecas tornarem-se um pouco menos raras e os seus acervos registarem algum crescimento. Mais tarde, o carácter residencial no ensino começou a ser posto em causa e os gravadores de som começaram a banalizar-se. Assim ficaram reunidos os ingredientes que em breve, uma vez iniciada a implementação dum ensino integrado que, infelizmente, depressa iria começar a trair na prática a pureza dos princípios em que assentava (nota 2), conduziriam, inesperada e lamentavelmente, à desbraillização, cujos nefastos efeitos para os cegos tanto nos vêm preocupando agora.

O uso inconsiderado, íamos a dizer «criminoso», do gravador de som fez deste aparelho um meio pernicioso, transformando assim um recurso de valor complementar incontestável (para já não falar no valor absoluto que assume para todos aqueles que não podem ler braille), num instrumento aniquilador da leitura braille. E, contudo, a leitura por excelência só o livro em braille a pode proporcionar.

Como sabemos, a leitura tornou-se, desde há muito, eminentemente individual. Vão longe os tempos em que se praticava a leitura colectiva quando a maior parte dos leitores acediam aos textos pela via auditiva. Mas esta prática não se revelou satisfatória para as necessidades do indivíduo, e, à medida que o desenvolvimento cultural e civilizacional veio impondo a

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alteração das circunstâncias, a leitura foi-se individualizando até se converter na actividade eminentemente pessoal que hoje praticamos.

Os livros, excepto os raros, perderam o carácter de bens preciosos, de objectos sujeitos a rigorosa reserva, para passarem a ser bens de uso corrente, acessíveis a grandes massas de leitores. Deixaram de ser copiados nos scriptoria dos conventos, penosa tarefa levada a cabo ao longo de muitos séculos pelos escribas, em condições de iluminação extremamente precárias que atiraram com muitos desses monges para a cegueira, e passaram a ser impressos, graças à invenção da imprensa de Gutenberg e à vulgarização do seu uso.

Esta evolução, conjugado com os valores humanistas em afirmação crescente, teve como consequência a generalização do ensino. E foram estas as duas premissas que determinaram a democratização do livro e a predominância da natureza pessoal, íntima, da leitura. Pode então considerar-se que ler é mergulhar num texto e ficar imerso no pensamento do autor para lhe captar o conteúdo e a forma. Mas, com o sucesso deste mergulho, permitam-me a expressão, tem a ver também a aptidão do leitor para assimilar a mensagem e tornar mais rica essa assimilação através da incorporação do contributo tirado do seu próprio capital de experiência e da sua estatura cultural. A leitura surge, então, como um compromisso entre o que o autor escreveu e o enquadramento intelectual e emocional que o leitor for capaz de criar, através das associações que conseguir estabelecer.

Regressemos então ao livro em braille para tentar avaliar a qualidade de leitura que nos proporciona. Sendo a leitura eminentemente e intimamente pessoal, como se viu, e dependendo também da capacidade de assimilação e dos apports de cada leitor, torna-se necessário o contacto directo do leitor com a forma gráfica escolhida para transmitir o pensamento do autor. Só através deste contacto pode o leitor seguir o seu próprio ritmo de assimilação, acelerando nas passagens mais apelativas, ralentando, insistindo ou repetindo nos passos de elaboração mais complexa, captando e apreciando directa e genuinamente as intenções expressivas traduzidos pelos recursos gráficos empregados, imprimindo a interpretação pedida pela sua própria sensibilidade.

Por outro lado, o leitor contacta com a realidade ortográfica das línguas, contacto imprescindível para ajudar à interiorização das imagens gráficas dos vocábulos. O leitor pode, também, manusear facilmente os livros, compulsando rapidamente os volumes, fazendo desfilar diante de si, sucessivamente, secções de duas páginas de texto para as explorar em leitura

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horizontal, vertical, diagonal, paralela, etc. Pode ainda o leitor escolher sem constrangimentos nem dependências o local de leitura, urna vez que o livro não necessita de qualquer meio que viabilize a sua utilização. É por tudo isto que, quanto a nós, o livro, não obstante a importância já referida do contributo dos outros meios auxiliares de leitura, continua a ser o instrumento de leitura por excelência.

E, se a leitura é importante para qualquer cidadão, ela não é menos importante para os deficientes visuais, privados da capacidade de apreensão de informação pela imagem ou drasticamente limitados quanto a essa capacidade. As consequências desta incapacidade, terrivelmente limitativas para os que são afectados por elas, poderão ser bastante atenuadas, se o hábito e a facilidade de ler, bem corno a abundância e variedade de livros, revistas e jornais, facilmente acessíveis, tiverem podido criar o interesse e o gosto pela leitura.

Notas

(nota 1) É oportuno citar aqui o que Pierre Henri escreveu no seu livro «La vie et 1'oeu'vre de Louis Braille»: «Et c'est ce matériel de fortune qui vraissemiblablement resta en usage pour Ia typographie braille jusqu'en 1854, date à laquelle fut imprimée en braille à I'Instituition de Paris une méthode de lecture en langue portugaise (MVH nº 1439). Cette fois, on fit graver autant de poinçons qu'il était nécessaire pour Ia production des différents caractères, car ce fut I'Empereur du Brésil en personne, Don Pedro II, qui paya sur sa cassette tous les frais du travail, en particulier Ia fonte de nouveaux types.

Cette date de 1854 peut être considérée comme le point de départ de Ia diffusion du braille hors de France.» (Paris: Presses Universitaires de France.) A Association Valentin Haüy editou esta obra em braille, em 1952.

(nota 2) Em 1979, no níimero de Maio-Junho de «Braille Intemational», publicação da Intemational Federation of the Blind, Jeanne R. Kenmore, uma especialista com uma reputação mundialmente reconhecida no campo da educação, depois de enumerar as razões que pesam a favor do ensino integrado e de salientar a necessidade de se reunirem as condições indispensáveis para este ensino ser viável, acrescenta: «Just placing visually handicapped children in school with the sighted without providing help to the children, their teachers and their families is putting an unreasonable burden upon all concerns. Many countries are proud that all their blind secondary pupils are in schools with the sighted, yet no special help is given to them. This is nothing to be proud of. This is something to be ashamed of. If there are no integrated programmes which can aid the secondary pupils, then the schools for the blind could and should make an organised effort to help those students. Even if it is not considered their responsibility, the special schools for the blind should reach out and make it their responsibility».

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3. BRAILLOLOGIA

No meio do século XX o braille já se distanciava claramente do primitivismo das primeiras décadas, graças à acção de algumas grandes ínstittiições, designadamelite a UNESCO, a quem se ficou a dever o aparecimento, no início dos anos 50, de um livro da responsabilidade de uma equipa coordenada por Clutha Mackenzie, intitulado «L'Ecriture Braille dans le Monde» (nota 3), em que nos é dada uma panorâmica actualizada da problemática do braille. Trinta anos mais tarde, a mesma Organização dava novo e não menos importante contributo para actualizar e completar a mesma matéria, fazendo publicar a obra "La Pratique du Braille: Le braille comme moyen de communication", trabalho duma notável equipa de colaboradores, desta vez sob a coordenação de Berry Hampshire. Estas obras, juntamente com outras de índole mais especializada no domínio do ensino do braille que entretanto foram aparecendo (nota 4), a par de uma muito apreciável quantidade de artigos sobre temas de natureza braillológica publicados em diversas revistas que se editam em alguns países, em braille e em tinta, permitem comprovar a amplitude e profundidade entretanto alcançados por muitas das matérias das várias vertentes da problemática do braille. Assim, evidenciam-se, entre outras:

- A análise e caracterização do Braille - O braille já alcançou dimensão histórica. A sua génese é conhecida, assim como o processo do seu triunfo quase absoluto no meio tipográfico. Foram identificadas e analisadas as suas características físicas - carácter autolimitado e ausência de outros recursos grafoperceptivos: cor, tipo, posição, orientação e tamanho -, bem como os constrangimentos resultantes da aplicação às diversas línguas de um código concebido para a língua francesa por alguém, segundo alguns, insuficientemente informado quanto à realidade gráfica da escrita a tinta.

- A uniformização braillográfica - Trata-se de aproximar o mais possível nos diversos países as várias grafias braille para as diferentes matérias - escrita literal / estenográfica (nos países com a mesma língua), matemática, química, fonética, informática, musical, etc. A vantagem óbvia de todos podermos partilhar a mesma grafia, ou grafias muito aproximadas, nestas matérias tem merecido um empenhado esforço colectivo. As acções desta natureza já desenvolvidas são merecedoras do maior encorajamento e devem ser continuadas e alargados às matérias ainda não abrangidos.

- O estudo e caracterização do braille como código de leitura táctil - Tornoui-se consciência da especificidade da leitura táctil face à leitura visual: rigor de percepção, unidade de percepção, tacto activo, esforço físico,

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exigências motoras e psicofisiológicas, influência da aptidão verbal, do conhecimento da língua e nível cultural.

- A preocupação pedagógica no ensino do braille - Consciência da importância da motivação no aluno para a aprendizagem bem corno do seu equilíbrio físico, emocional e intelectual. Reflexão sobre o efeito dos diferentes níveis etários na aprendizagem. Consciência da importância do emprego correcto das mãos e da necessidade de textos de ensino-aprendizagem concebidos tendo em conta a vivência experiencial dos alunos e o seu horizonte de conhecimentos que, pelo menos em muitos casos, não beneficiam do efeito integrador do sentido da visão. Particular atenção às técnicas de leitura, visando especialmente a leitura rápida. A importância da análise comparada de resultados na avaliação. A necessidade de motivar o aluno para a inevitabilidade de treino intenso como meio indispensável para a aquisição de desenvoltura na escrita e de fluência na leitura.

- O impacto das novas tecnologias - O mais espantoso contributo para valorizar a importância do braille depois da sua invenção. Está presente no ensino, mas afirmasse igualmente na produção de livros e na leitura. Impressoras de vários portes, terminais braille e sintetizadores de voz, leitores ópticos de braille e de caracteres em tinta, software de acesso, vários modelos portáteis de notebooks com linha braille, etc., põem ao serviço do braille uma panóplia de recursos, ainda há bem pouco tempo insuspeitados, que permitem enfrentar o futuro com expectativas revolucionárias. Refiram-se apenas, a título de exemplo, dois dos casos mais surpreendentes. - A drástica redução de espaço proporcionada pelo braille electrónico: um livro em braille com mais de 2000 páginas de formato A4 (750 páginas em tinta) pode ficar contido numa só disqtiete. - Enriquecimento e diversificação da expressão gráfica do braille: graças à incorporação da tecnologia de impressão por jacto de tinta numa impressora, o braille poderá passar a dispor de recursos gráficos baseados em diferentes grossuras, tamanhos e posição dos caracteres, podendo ainda passar a ser impresso em papel pouco espesso, o que poderá aumentar consideravelmente a quantidade de texto por volume. Por outro lado, os pontos poderão ser impressos a cores, o que será de grande interesse para os professores, pois irá facilitar muito a leitura aos normovisuais.

- A investigação aplicada a alguns destes domínios - As áreas em que, até ao presente, a pesquisa e a investigação se têm apresentado com mais visibilidade, são o ensino do braille, a análise e avaliação do braille estenografado inglês, a incorporação da tecnologia na concepção e fabrico

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de equipamento e no desenho e construção de software, bem como na produção de outros produtos. Esta actividade tem sido desenvolvida principalmente em laboratórios de centros de pesquisa e investigação universitários e em laboratórios de fabricantes de equipamentos.

Acesso às universidades - Matérias de natureza braillológica ascenderam à esfera universitária através das actividades de pesquisa e investigaçao, da apresentação e defesa de teses de doutoramento e mestrado e da realização de cursos, workshops e outras acções (nota 5).

Disponibilidade duma vasta e reputada bibliografia - Está hoje acessível sem dificuldade a bibliografia sobre estas e outras matérias existente em diversas bibliotecas. Parte dela pode também ser encontrada em revistas.

Este consistente conjunto de matérias, por outro lado, coerentemente articuladas em ordem a uma finalidade social e humana - fazer ascender à literacia, através do braille, nas melhores condições possíveis, a minoria social que os deficientes visuais constituem, impõe-se como um corpo de conhecimentos necessário ao sucesso deste objectivo educacional e social. Este conjunto de conhecimentos, assim relacionados, com a finalidade que apontámos, denominamo-lo braillologia; e, a nosso ver, deverá vir a constituir uma disciplina a integrar na formação de diversos profissionais, muito em especial na dos professores, designadamente dos professores de apoio ao ensino integrado e do ensino de braille.

Notas

(nota 3) A educação especial tem por fim preparar os jovens deficientes para se integrarem completamente na vida da comunidade. Consciente do elevado grau de importância que o braille reveste para os cegos na consecução deste objectivo em 1949 a UNESCO tomou a iniciativa de proceder a um estudo com vista a uniformizar o Braille no mundo. Pediu a Clutha Mackenzie (Nova Zelândia) para redigir um projecto aceitável universalmente para aplicar a escrita braille a todas as línguas. Em 1954, a UNESCO publicou o resultado destes trabalhos numa obra editada em inglês, francês e espanhol, que constituiu um acontecimento para os cegos do mundo inteiro e fez sair o braille duma multidão de códigos pontográficos para o erigir em meio de comunicação universal.

Os progressos que desde então se têm registado neste domínio levaram a UNESCO a efectuar um estudo sobre a escrita braille enquanto meio de comunicação, no qual, à luz dos conhecimentos proporcionados pela

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investigação, se trata da utilização do braille, da selecção, produção e difusão de obras em braille, dos códigos braille, da leitura, da aprendizagem e do ensino do braille. Este estudo conduziu ao aparecimento, no princípio de 1982, de outro livro que se ocupa ainda das imprensas e bibliotecas braille, dos fabricantes de materiais, das fontes de informação relativamente ao braille, dos centros de investigação e do braille electrónico.

Esta publicação analisa pois a situação dos deficientes visuais em relação ao braille, considerado como meio de comunicação. Ela deverá interessar não somente a esta categoria de deficientes, mas também aos educadores, aos profissionais da produção de texto braille, a todos os que lidam com pessoas que sofrem de perturbações da visão e a todos aqueles que se preocupam com o problema dos meios de comunicação destinados às pessoas privadas do uso da vista.

A responsabilidade pela redacção e pelo aprontamento desta obra cabe principalmente a Berry Hampshire (Inglaterra) que trabalhava para a Associação de Deficientes Visuais da Suécia. O Dr. Walter Cohen, do Conselho Nacional para Cegos da África do Sul, e John Harvis, do Royal National Institute for the Blind (Inglaterra), já falecido, bem como Jan-Ingvar Lindstrom, da Federação Sueca de Deficientes, redigiram também alguns artigos; muitos outros peritos contribuíram amavelmente, por diversas formas, para a realização deste estudo. (Baseado num folheto editado pela UNESCO.)

(nota 4) V. «Reading in Braille: An introductory source book for teachers» by Pam Lorimer. London: Royal National Institute for the Blind, 1994.

(nota 5) Para demonstração da importância já reconhecida a estas matérias no plano universitário refere-se, a título de exemplo, a existência do «Visual Impairment Department» da Escola de Educação, na Universidade de Birmingham.

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4. NECESSIDADE DE FORMAÇÃO BRAILLOLÓGICA

Já atrás demonstrámos a importância do braille, como meio de escrita e de leitura para os deficientes visuais (nota 6). Mas para poderem beneficiar das vantagens que o braille lhes pode proporcionar, é preciso que os deficientes visuais estejam aptos a dominá-lo; e o ensino integrado, como já vimos, tem dificultado muito, tem até impedido muitas vezes, a aquisição desse domínio. Sempre acreditámos, e continuamos a acreditar, nas razões que pesam a favor do ensino integrado e conduziram à sua adopção. Mas também entendemos que essas razões têm de ser efectiva e seriamente encaradas como pressupostos, fundamentais e necessários, para o sucesso dum processo que desagrava as consequências da deficiência, valorizando assim o indivíduo, encaminhando-o para a igualdade de oportunidades, para a integração social.

Para isso é preciso que se definam políticas educativas coerentes, se desenhem programas de acção adequados e se vigie a sua execução; é preciso que haja professores suficientes devidamente preparados, inclusivamente quanto ao conhecimento da problemática do braille; é preciso que o apoio desses professores vá de facto ao encontro das necessidades dos alunos e dos seus professores nas escolas comunns, em vez de os deixar abandonados, como Jeanne R. Kenmore referiu; é preciso que os livros escolares estejam disponíveis em tempo oportuno; é preciso que os livros em braille não se tornem factores de desmotivação da leitura, pelo seu tamanho, peso, imperfeição e falta de atractivos como objectos. Se estas condições forem satisfeitas, sustentam vários investigadores (nota 7), os alunos poderão vir a dominar o braille de modo a sentirem-se plenamente compensados pela sua utilização e a usufruírem amplamente dos benefícios que essa utilização por certo lhes proporcionará.

Sendo o braille essencial à literacia para os deficientes visuais, e esta imprescindível ao seu desenvolvimento e integração educacional, familiar, profissional e social, é nosso indeclinável dever empenharmo-nos com toda a determinação, como que com sentido de missão, ou mesmo com espírito de cruzada, na batalha contra o analfabraillismo e a favor da promoção e valorização do braille, da sua reconquista. Assim, devemos propugnar:

- O seu reconhecimento oficial;

- A criação e manutenção de órgãos responsáveis pelo estudo de toda a problemática do braille e pela regulamentação da prática braillográfica;

- A formação e reciclagem de professores no sentido de

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os tomar aptos a ministrar eficazmente um ensino do braille que possa contribuir para o equilíbrio funcional na vida individual e colectiva dos alunos;

- A disponibilização de textos para aprendizagem concebidos à luz da especificidade do braille como código de leitura táctil e tendo em conta a idade de contracção da cegueira e a ausência do efeito integrador da visão.

Estas reivindicações, em alguns países, mais não são do que contribuir para levar à observância duma prática pedagógica coerente com os princípios do ensino integrado, que se diz adoptar, e com a realidade da escola inclusiva, que já se diz existir, e para levar a um procedimento político consequente perante o exercício dos direitos à educação e à cultura, que se diz reconhecer.

Tendo o braille o grau de importância que se lhe reconhece para o desenvolvimento da personalidade; sendo a acção educativa nos últimos tempos tão profundamente contrária ao ensino eficaz do braille, salvaguardadas raras e honrosas excepções, pretendendo-se, como o temário desta Conferência demonstra, ampliar o uso do braille face à comunidade, é nossa obrigação, no papel de genuínos e principais interessados, assumir com veemência uma atitude verdadeiramente braillófila para enfrentar o alheamento, a indiferença, a negligência das autoridades e as manifestações de braillofobia de alguns professores, e procurar fazer reconhecer a necessidade de formação braillológica e da integração dessa formação na preparação dos profissionais que concorram para a eficiência da literacia entre os deficientes visuais.

Notas

(nota 6) Na Conferência de Madrid, em Abril de 1978, houve unanimidade quanto ao entendimento de que «um bom domínio da escrita e da leitura do braille é indispensável para os cegos no trabalho e nas actividades de ócio, e o seu conhecimento insuficiente pode produzir um sério empobrecimento nas suas vidas».

(nota 7) V. «El Braille y Ia Investigación» / Pamela Lorimer. In «Los Ciegos en el Mundo» / Unión Mundial de Ciegos. Nº 13 (segunda parte).

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5. PROPOSTAS DE RECOMENDAÇÕES

Era nosso propósito obter da Conferência uma iniciativa clara de adesão à matéria por nós defendida neste trabalho, visto que tal posição, saída dum forum com a legitimidade e representatividade inerente àquela Conferência, viria seguramente a constituir um importante instrumento de apoio para evocar a favor da criação de condições mais adequadas a um correcto e mais eficaz ensino do braille. Por isso decidimos antecipar duas propostas de recomendações, ambas dirigidos, em última instância, ao Conselho Ibero-Americano de Braille.

Uma preconizava que este Conselho encarasse «a conveniência de preparar uma recomendação às autoridades nacionais responsáveis pela educação, no sentido de ser criada uma cadeira de braillologia, tendo por objectivo o ensino da problemática do braille, com um conteúdo programático equivalente ao conjunto das matérias indicados nas páginas 12-15, a integrar nos programas de formação de profissionais que concorram, em alguma medida, para a eficiência na literacia entre os deficientes visuais».

A outra instava o mesmo Conselho a recomendar «às Associações de Cegos que criem estruturas, adequadamente capacitadas, destinadas a defender e promover o braille e a fomentar o seu uso entre os cegos adultos».

Esta recomendação não aparece consubstanciada numa resolução da Conferência; a matéria de que se ocupa encontra-se diluída por diversas resoluções. Contudo, a criação duma cadeira de braillologia levou a Conferencia a aprovar uma resolução, a nº 4, nos seguintes termos:

«Recomendar al Consejo Iberoamericano del Braille (CIB)

4.1. - Que promueva Ia estructuración de una disciplina que abarque todos los aspectos vinculados con el sistema braille, tales como Su historia y Ia de quienes lo han introducido y difundido en Iberoamérica, Análisis y caracterización del mismo como código táctil, Conocimiento de los distintos códigos específicos (científicos, musicográficos, estenográficos, informáticos, etc.), La preocupación pedagógica por su enseñlanza, El impacto de Ias nuevas tecnologías, Su difusión eni âmbitos universitários, Las necesidades en materia de bibliografia completa y rica;

4.2. - Que esta asignatura se incluya en Ias carreras de grado de los docentes especiales, en cursos de dirigentes de asociaciones de ciegos, etc,, a fin de lograr Ia formación integral de los profesionales y dirigentes y, en consecuencia, Ia de Ias personas con discapacidad visual hacia Ias que va dirigida su acción».

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[início da contracapa]

Alfabeto Braille

COMISSÃO DE BRAILLE
SECRETARIADO NACIONAL PARA A REABILITAÇÃO E INTEGRAÇÃO DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

Avª. Conde de Valbom, 63
1069-178 LISBOA
Telf.: 21 792 95 29
Fax: 21 794 22 08
Email: comissao.braille@snripd.mts.gov.pt

[fim da contracapa]

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