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GESTA-MP

Grupo de Estudos Sociais, Tiflológicos e Associativos

Que legado temos hoje do percurso de vida de Helena Keller?

José António Baptista.
Porto, 23 de Junho de 2005.
Seminário: Preparar hoje o futuro - novos horizontes para a pessoa surdocega em Portugal.

HELENA KELLER. - Helena Keller (1880-1968) foi uma jovem norte-americana que aos 19 meses, depois de grave doença, ficou cega e surda e quase muda em consequência da surdez. Nestas condições, sem poder ver nem ouvir, passou a depender total e completamente do sentido do tacto para comunicar com os outros seres humanos. Como diríamos hoje, tornou-se surdocega na sua forma mais extrema.

Durante os anos que se seguiram conheceu apenas as reacções próprias dos instintos naturais, pois os acessos de cólera levavam-na a obter facilmente tudo o que era necessário à sua existência material. Privada da linguagem, foi-se afastando do ambiente afectivo e dos princípios de ordem moral que ligam os membros de uma família e constituem a base das comunidades humanas.

A vida de Helena Keller mudou completamente por volta dos 7 anos. Miguel Anagnos, Director da Perkins Institution, de Boston, recomendou a ex-educanda Ana Sullivan para tentar a sua educação. Jovem de 20 anos, filha de imigrantes irlandeses, Ana Sullivan estivera cega num período da sua vida em consequência de tracoma, mas duas operações haviam-lhe restituído praticamente a visão. Helena Keller, embora dotada de vigorosa saúde física e de intelectualidade ainda relativamente intacta, teria permanecido no mundo animal se, nos limites do tempo útil para a sua recuperação, não houvesse sido entregue à extraordinária professora que lhe forneceu o elemento fundamental para o desenvolvimento da inteligência – a linguagem. Assim, e vencendo todas as dificuldades, veio a ser uma pessoa distinta e muito instruída, que se formou numa Universidade e obteve brilhantes notas nos exames de idiomas.

A vida mental de Helena Keller foi muito activa, repartindo-se entre a meditação, a leitura, a conversa com os seus íntimos, o cuidado de uma numerosa correspondência e os seus trabalhos literários. O seu estilo foi adquirindo categoria e evoluiu com o tempo.

A princípio escrevia sobre tudo: clima, história, edificações e geografia das terras que ia estudando; reais e imaginários companheiros da sua idade; países de fadas...

Mais tarde, depois que a educação superior desenvolveu a sua capacidade de expressão, Helena Keller consagrou-se inteiramente aos cegos e aos surdos, pugnando pelo seu direito de viver, de se instruir e ter uma profissão. Lia muito sobre os problemas da cegueira (a unificação do Sistema Braille, os métodos de ensino das crianças cegas, a preparação dos adultos para o trabalho, a prevenção de acidentes oculares, os preconceitos do grande público, etc.), a fim de poder discutir e escrever competentemente a respeito deles.

A AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM. - Helena Keller era cega, surda e muda desde a mais baixa infância. A maneira como esta tripla deficiência foi compensada atraiu para ela um interesse cada vez maior, primeiro nos Estados Unidos e depois no mundo inteiro.

Muito resumidamente, referiremos que foi suficiente traçar-lhe certos sinais na mão, enquanto ela tocava os objectos, para que em vinte dias compreendesse que toda a ideia está representada por um signo especial, graças ao qual os homens podem comunicar entre si. Um mês e meio mais tarde conhecia pelo tacto os caracteres do alfabeto braille; passado mais um mês conseguia escrever uma carta a um dos seus primos. Ao cabo de três anos tinha adquirido uma quantidade de ideias e de palavras suficientes para conversar, ler com inteligência e escrever em bom inglês.

Houve então a ideia de a fazer tocar os movimentos da faringe, dos lábios e da língua que acompanham a palavra. Imitando estes movimentos, conseguiu reproduzir os sons que se articulavam na sua presença. Um mês depois da primeira aula de articulação, num som cavo e aspirado, pronunciou a célebre frase “já não sou muda.”

Ana Sullivan prosseguiu este paciente trabalho com Helena Keller durante toda a vida. Os começos foram difíceis, mas a coragem de ambas levou Helena a poder falar, isto é, a poder exprimir as ideias pelo som. Nunca chegou a falar em público de maneira satisfatória, mas, em compensação, logrou especializar-se na leitura de lábios pelas vibrações. Pondo a mão nos lábios do seu interlocutor, conseguia perceber as suas palavras com os dedos, principalmente quando a voz era clara e sonora.

Assim, sempre cega e sempre surda, servindo-se apenas do sentido do tacto, Helena Keller rasgou três caminhos para o mundo exterior, três caminhos para o mundo das ideias: o alfabeto manual, a leitura em relevo e a palavra humana. Enfim, não contente com dominar o seu próprio idioma, estudou o francês, o alemão, o latim e o grego. Escrevia corretamente o francês, que começou a estudar aos 9 anos e a seu pedido; estudou o alemão para conhecer directamente as grandes obras da literatura germânica; estudou também o latim e o grego, que lhe exigiram para os seus exames universitários.

Helena Keller compreendeu que toda a ideia está representada por um signo especial; e, servindo-se apenas do sentido do tacto, rasgou três caminhos para o mundo das ideias. Mas a sua vida intelectual tem muito significado, devido à importante função que em condições normais o ouvido exerce na actividade da inteligência. A faculdade de ouvir representa para o homem a assimilação espontânea da linguagem. Mesmo quando se perde a audição mais tarde há uma regressão na variedade das palavras usadas. Ora, todo o progresso na ordem das abstracções tem de se ficar a dever a progresso paralelo na assimilação da linguagem. É a linguagem que leva o espírito até à concepção das ideias gerais e abstractas, pelo trabalho de refleção que o pensamento acumula sobre os objectos.

O CASO DE HELENA KELLER. SEU SIGNIFICADO. - O caso de Helena Keller não tem nada de milagroso. Representa, sim, uma grande lição, da qual já beneficiaram, em maior ou menor grau, alguns milhares de seres humanos.

O que mais nos interessa nele é o trabalho de Ana Sullivan, pois demonstra o valor da técnica, da vontade e do amor pelo nosso semelhante quando aliados ao serviço da recuperação dos inferiorizados sensoriais.

Hoje trabalha-se em campo desbravado pela experiência e com apoio num certo número de conhecimentos adquiridos, que se vão acumulando e desenvolvendo. Mas Ana Sullivan trabalhou em terreno desconhecido, armada, apenas, da sua grande compreensão humana e da sua profunda intuição pedagógica. No entender de problemas que a cada hora se levantavam, no resolver de situações que não tinham precedente, Ana Sullivan pôs muito de pessoal, que veio ao mesmo tempo do coração e da inteligência.

Quando Miguel Anagnos recomendou Ana Sullivan para tentar a educação de Helena Keller ainda se encontrava internada na Perkins Institution Laura Bridgman que, além de cega e surda, estava quase totalmente desprovida do gosto e do olfacto e cujo isolamento fora vencido pelo Dr. Samuel Gridley Howe. Laura representava como que o modelo a ser imitado e Ana Sullivan pediu que a deixassem permanecer alguns meses na Perkins Institution, estudando os métodos de que se serviam para com ela e lendo os relatórios que o Dr. Howe tinha deixado.

Mas a criança surda-muda e cega que lhe confiavam não era uma criança qualquer. Dispunha de enorme facilidade de aprender, era inteligente, voluntariosa, pertinaz, ansiosa de movidade e de grandeza. O mérito de Ana Sullivan foi fazer desabrochar as qualidades extraordinárias de Helena Keller. Mas, pelo modo como o seu processo de educação se desenvolveu e pela participação que ela própria tomou nesse processo, não falaríamos hoje de Ana Sullivan se não tivesse existido Helena Keller. Como diz o Prof. Albuquerque e Castro, estavam feitas uma para a outra. A professora, para transformar a discípula; esta, para engrandecer a professora.

É agora altura de responder à questão que me foi colocada como tema da minha participação neste Seminário. Que legado temos hoje do percurso de vida de Helena Keller?

O Prof. Albuquerque e Castro diz que em todo o processo pedagógico desenvolvido por Ana Sullivan, tudo é objecto de meditação e ensinamento. Esta asserção permanece verdadeira, mas o tempo passa, as perspectivas mudam, os problemas põem-se ao nosso espírito de maneira diferente.

Talvez possamos dizer que, como legado do percurso de vida de Helena Keller, temos hoje a realidade incontornável dos surdocegos e do seu direito a uma vida digna de ser vivida. O nome de Helena Keller aparece naturalmente ligado às iniciativas de maior projecção relacionadas com os direitos e as necessidades destas pessoas.

A REALIDADE DOS SURDOCEGOS. - Partindo dos cegos, cuja condição é bem mais conhecida, diremos alguma coisa sobre a realidade dos surdocegos. Todos sabemos que a educação do ouvido é essencial tanto para o viver quotidiano como para a completa normalização social das pessoas cegas. As sensações auditivas, interpretadas pelas informações que o aparelho motor fornece, podem ser localizadas no espaço e utilizadas para a acção. O cego situa os objectos sonoros relativamente a si próprio e serve-se das ondas reflectidas para representar os lugares onde se encontra ou por onde circula.

E podemos verificar, igualmente, que qualquer abaixamento da audição, mesmo leve e seja qual for a idade em que sobrevenha, acarreta dificuldades acrescidas na adaptação ao meio físico e social. Basta observar os cegos surdos, os cegos um pouco surdos ou os cegos apenas duros de ouvido. Todos eles parecem ser mais cegos do que os cegos que têm audição normal.

Podemos compreender, por fim, que as dificuldades de adaptação se agravam quando os vários graus de surdez e de cegueira dão as diversas combinações de ambas as deficiências. Indivíduos completamente cegos e surdos, como Helena Keller; indivíduos totalmente surdos e parcialmente cegos, indivíduos duros de ouvido e cegos totais, etc., etc., etc.

Impõe-se, pois, a realidade de que a surdocegueira não precisa ser total para levantar problemas especiais e severos, que exigem soluções especiais e inteligentes. A Primeira Conferência Mundial Helena Keller sobre Serviços aos Surdocegos Jovens e Adultos, reunida em Setembro de 1977 na cidade de Nova York, adoptou uma definição que vem ao encontro daquela realidade. São surdocegos os indivíduos que têm uma perda substancial da visão e da audição, de tal modo que a combinação das duas deficiências causa extrema dificuldade em ter boas prestações educacionais, vocacionais, recriativas e sociais.

Esta definição tem o mérito de ser mais funcional do que técnica. Nela, a palavra-chave é a palavra combinação. Se uma pessoa tem uma perda substancial da visão e da audição e a combinação destas perdas constitui grande dificuldade para que ela possa estudar, conseguir um emprego, distrair-se ou participar na vida social, então essa pessoa é surdocega. Não há nada mais pungente do que dizer a uma pessoa que sofreu graves perdas de visão e de audição que ela não é suficientemente cega ou suficientemente surda para ver reconhecidos os direitos e beneficiar dos serviços que são devidos aos surdocegos.

Nos nossos dias a psicologia é uma disciplina científica. É com base nela que se estabelecem os processos e os conhecimentos da pedagogia, da medicina, da cultura física e da tecnologia que hão-de conjugar-se para a reabilitação de cada surdocego. É necessário usar metodologias e técnicas que utilizem ao máximo eventuais resíduos de visão e de audição e realcem o desenvolvimento das capacidades do sentido do tacto. Os resíduos visuais e auditivos deveriam ser aumentados sempre que possível, através do recurso à medicina e às modernas tecnologias.

A população surdocega com problemas é muito heterogénea, pela gravidade diferente das perdas que apresenta, pela idade em que a dupla deficiência se tornou efectiva, pelo sistema de comunicação anteriormente desenvolvido ou, até, pela ausência de qualquer sistema de comunicação. Devemos pôr a tónica no problema da comunicação, que é vital e existe em todos os casos.

Comunicar com os outros seres humanos é o direito que o surdocego mais precisa de ver realizado.

A mente humana deverá derrubar todas as barreiras para alcançar outras mentes humanas. A este propósito temos a referir que a Primeira Conferência Mundial Helena Keller sobre Serviços aos Surdocegos Jovens e Adultos, considerando a Declaração Universal dos Direitos do Homem, das Nações Unidas, e a Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes, adoptou e recomendou à comunidade mundial uma declaração especialmente relacionada com os direitos e as necessidades das pessoas surdocegas. Nesta declaração diz-se que as pessoas surdocegas devem ter o direito, sem despesas, aos serviços de um intérprete que sirva de elo de comunicação com a comunidade.

UMA PALAVRA DE ESPERANÇA. – Desejaria terminar com uma palavra de esperança, como Vice-Presidente da Comissão Executiva do Movimento Progressista GESTA-MP. O GESTA-MP é um movimento de implantação nacional e cariz social, tiflológico e associativo, que se propõe contribuir, primordialmente no âmbito da ACAPO, para o correcto equacionamento e a adequada resolução dos problemas dos cegos, surdocegos e amblíopes portugueses, através de uma acção progressista e independente. Ao constituir-se optou pela ausência de personalidade jurídica, a fim de desenvolver trabalho organizado no âmbito da ACAPO sem pôr em risco a unidade associativa dos deficientes visuais portugueses.

O GESTA-MP tem uma estratégia de actuação que inscreve a realidade da deficiência no terreno dos direitos humanos. Na sua Carta de Princípios proclama o direito de todos os cegos, surdocegos e amblíopes a beneficiarem de medidas de compensação das desvantagens decorrentes da deficiência visual (agravadas quando esta deficiência estiver combinada com a deficiência auditiva). Na referida Carta de Princípios o GESTA-MP proclama também o direito de todos os cegos, surdocegos e amblíopes a usufruírem de programas de reabilitação, concebidos e executados com base nas suas necessidades reais e na sua participação, os quais deverão garantir, nomeadamente, a correcta avaliação das situações, o adequado aconselhamento dos interessados e respectivas famílias, o fornecimento dos mais eficientes auxiliares ópticos e auditivos e a estimulação de todas as capacidades remanescentes com vista a proporcionar níveis óptimos de autonomia e de inserção social. Na mesma Carta o GESTA-MP proclama ainda o direito de todos os cegos, surdocegos e amblíopes a acederem à informação e à comunicação, quer através do recurso a meios tradicionais (braille para os cegos, intérpretes para os surdocegos e caracteres ampliados para os amblíopes), quer recorrendo às possibilidades abertas pela sociedade da informação.

O GESTA-MP está em sintonia com os direitos e necessidades dos surdocegos e tem vindo a ganhar espaço nos órgãos sociais da ACAPO. Chegará o dia em que poderá dirigir esta Associação a nível nacional. Então, certamente, ajudará a abrir novos horizontes para a pessoa surdocega em Portugal.

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Última actualização efectuada em 17 Julho 2005
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