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Grupo de Estudos Sociais, Tiflológicos e Associativos

Tribuna

Ser ou não ser notícia?

Por Maria João Garcia, Jornalista

Como é possível? Esta pergunta não me sai da cabeça cada vez que penso na relação que os meios de comunicação social têm com os problemas relacionados com a deficiência, seja ela de que tipo for. Sempre que há uma notícia que envolva deficientes só se lhe dá importância se estiver envolta em grande polémica, se não houver mais nada e, se o assunto puxar por uma lagrimazinha no olho. 

Não sou jornalista há tanto tempo quanto isso, mas já deu para perceber que não é nada fácil fazer notícias sobre este assunto, com pés e cabeça - que é como quem diz sem sensacionalismo e sem a imagem do "coitadinho". Dou-vos um exemplo que mostra exactamente como os problemas dos deficientes estão um tanto ou quanto à margem do que é notícia. No outro dia fui a uma conferência de imprensa onde se apresentava a nova versão do Hal, o software que permite aos cegos e amblíopes lerem o que está no computador, e os jornalistas eram "uma ninharia". Como me confessou o relações públicas responsável pelo evento é sempre difícil conseguir jornalistas naquelas ocasiões. 

Estávamos perante um acontecimento bastante importante para todos os cegos e amblíopes. Um software que lhes permite ler, sem qualquer problema, o que está no ecrã do computador. As versões mais antigas são tão más, em comparação com as novas, que é inevitável não se perceber a diferença. As antigas têm um som robotizado, de difícil compreensão para quem não está habituado e duas das versões são em brasileiro e com sotaque inglês. A nova é em português e é compreendida por qualquer pessoa. 

Sei que não posso falar com o conhecimento de causa de um cego ou de um amblíope, mas é inevitável não perceber a importância do lançamento da nova versão do Hal, para quem está a ler este artigo e se vê, imagine-se, por momentos, cego e a precisar de utilizar o computador. De certeza que preferia ter a ajuda de uma voz portuguesa e de fácil compreensão. É tão difícil perceber isto? Penso que basta ter um pouco de sensibilidade. 

A realidade é ainda mais complexa. As escolas portuguesas que têm algum tipo de programa para ajudar os deficientes visuais a utilizarem o computador, só têm as versões mais antigas. Desta forma, os invisuais ou os amblíopes ficam afastados de todas as regalias com que as tecnologias da informação têm favorecido à maioria das pessoas. Querem aceder à Internet e é o problema de o software não ter capacidade para ler páginas com muitas imagens. O maior drama é para quem ficou cego há pouco tempo ou para quem tem baixa visão e se tem de habituar a um programa de voz que é tudo menos agradável de ouvir. Todas estas vertentes e mais algumas podiam ter sido abordadas pelos jornalistas naquela conferência. É assim tão complicado lembrarmo-nos dos problemas dos deficientes? Com isto não estamos a tratá-los de maneira diferente ou a dizer que são uns "coitadinhos". Estamos a falar dos problemas reais que eles enfrentam, assim como falamos dos problemas que as pessoas que vêem enfrentam neste mundo. 

Então o que se deve fazer? Dar um raspanete aos jornalistas? Realizar acções de sensibilização? Pois é, o problema é mais grave do que se possa imaginar. Muitas vezes há vontade por parte destes profissionais - e não falo só por mim - de abordar estes temas, mas os obstáculos são muitos. 

Antes de mais, temos de enfrentar a barreira do editor. Infelizmente, há muitos que são "cegos" e não conseguem ver que os problemas dos deficientes também interessam ao comum cidadão. A ideia que se tem, muitas vezes é de que não vale a pena pegar num assunto que já é do conhecimento de todos, isto é, os cegos não vêem e por causa disso têm grandes problemas no seu dia-a-dia. Ideia semelhante têm os directores de informação. 

O caos reside exactamente aqui. A visão que se tem dos deficientes é que têm dificuldades, são uns pobres coitados e que quando conseguem alguma coisa positiva é por que são uns heróis. Nunca ou quase nunca se consegue pensar num deficiente como uma pessoa normal, que tem uma determinada limitação física. 

Obviamente, que aqui o problema já vem de raíz, que é como quem diz, já vem da sociedade em que vivemos. Desde pequenos que aprendemos que os deficientes são uns "coitadinhos", infelizes e que lá têm que levar a vida da melhor maneira possível, sem nunca poderem ser completamente felizes. Esta visão está tão enraizada que é difícil mudá-la, mas não impossível. 

Os meios de comunicação social vivem cada vez mais do que se vende. A crise é grande. As notícias têm de ser sensacionalistas e puxar a tal lágrima, principalmente quando se trata dos problemas dos deficientes. Quando sonhava ser jornalista, pensava, ingenuamente, que iria conseguir fazer várias reportagens que pudessem ajudar a mudar esta mentalidade. Enganei-me. A vontade de um jornalista pode ser muito grande, mas é muito difícil fazer vingar as nossas ideias junto dos nossos superiores. 

Com isto quero dizer que a situação nunca vai mudar? Claro que não. Já dizia o Poeta, "tudo vale a pena, desde que a alma não seja pequena". É difícil, mas há que tentar fazer um esforço e mudar as coisas. É um caminho sinuoso, com muitos altos e baixos, muitas desilusões, mas tem que se continuar. 

Um caminho que deve começar, na minha singela opinião, por mostrar que o deficiente é uma pessoa normal, que teve o infortúnio de ficar com algumas limitações, mas que não deixa de ser um ser humano com sentimentos e com capacidades como aqueles que vêem. Isto não é só o politicamente correcto, é, acima de tudo, a pura verdade. 

Estamos a falar da comunicação social, mas esta luta é de todos os cidadãos e quem deve dar o primeiro passo são os deficientes e quem conhece bem de perto a realidade deles. Já é tempo de parar com as notícias sensacionalistas e com aquela imagem falsa de que um deficiente quando consegue os seus objectivos é um grande herói. Nunca ou raramente é visto como uma pessoa normal que conseguiu realizar um sonho. 

Esta conversa faz-me lembrar o meu antigo formador de rádio. Num trabalho resolvi falar sobre o único grupo de teatro de cegos que existe em Portugal. Fiz um texto como se estivesse a falar de um grupo de pessoas que vêem e falei apenas dos truques que os cegos utilizam para terem uma noção do cenário à sua volta. Afinal, eles são pessoas normais que também podem representar. Era impensável abordar o assunto de outra maneira. 

O meu formador, para meu grande espanto, queixou-se que não tinha explicado como é que um cego representava, pois isso era algo "completamente extraordinário". A mudança de mentalidades começa precisamente aqui. Explicar às pessoas que o cego, ou qualquer outro deficiente, para lá das suas limitações físicas, consegue pensar, falar e interpretar um texto. Não é nada de outro mundo. 

Talvez a partir daí, os meios de comunicação social mudem a sua maneira de ver o mundo dos deficientes que não é mais do que o mundo de todas as outras pessoas. 

Vamos lutar para mudar a realidade. Não vamos desistir, por que só assim é que o mundo evolui para melhor. Mas, cuidado! Não sejamos ingénuos em pensar que a situação vai mudar rapidamente. Há outros problemas à volta. Na comunicação social, o mais grave, é a questão do que dá lucro.

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Última actualização efectuada em 13 Março 2004
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