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Grupo de Estudos Sociais, Tiflológicos e Associativos

 

OLHAR PELA JANELA

Para tudo se acabar na quarta-feira

Por Fernando Abreu Matos

Antônio Carlos Jobim, esse mago da música conhecido em todo o mundo e criador da melodia para as palavras de Vinícios de Morais que dão título ao presente artigo, disse certa vez que "o Brasil não é para principiantes". Tinha razão. E o autor do presente texto, se se atreve a debruçar-se aqui sobre assuntos brasileiros, é apenas porque confia na complacência dos leitores, nomeadamente dos muitos amigos que, naquele país, lhe têm ensinado grande parte do que dele conhece.

É verdade que o Brasil continua a ser, para muitos estrangeiros, ainda hoje, simplesmente o país da bossanova e da "Garota de Ipanema". Mas, como escreve Kennetth Maxwell (um dos grandes especialistas dos temas lusófonos dos últimos dois séculos), os próprios brasileiros estão a começar a irritar-se com a sua auto-imagem folclórica, a de um país de gente sempre jovem, bronzeada e infatigável frequentadora das praias. Esse facto não implica, todavia, que os brasileiros não queiram continuar a divertir-se, como também ressalva o historiador britânico, e que alguém esteja a propor que se acabe com o Carnaval. Em face das circunstâncias, dir-se-á que ainda bem.

Com efeito, só o desfile das escolas de samba da divisão especial (as 14 melhores), que teve lugar nas madrugadas de 23 e 24 de Fevereiro último, foi transmitido por mais de 100 canais de televisão, dos Estados Unidos ao Extremo-Oriente, levou ao país centenas de milhar de turistas e aos cofres das empresas e à bolsa de uma imensidão de pequenos e imaginativos empreendedores muitos milhões de dólares. O desfile das escolas é, hoje em dia, uma manifestação cultural nacional com repercussões internacionais incomensuráveis. Dessa forma de celebração originariamente carioca, somente destoam hoje no Brasil o Carnaval de Salvador, na Bahia (com os seus trios eléctricos), e os do Recife e Olinda, em Pernambuco. Mas nem sempre assim foi.

As Raízes Portuguesas

O Carnaval não chegou ao Brasil nas caravelas de Cabral, mas não tardou em acompanhar os colonizadores portugueses que, nas décadas subsequentes, lhe seguiram a esteira dos navios. Já nos finais do século XVI, ele se encontrava presente, pelo menos nas terras açucareiras do Nordeste. Numerosos documentos da Torre do Tombo relativos ao Brasil (designadamente os do conjunto conhecido por "Corpo Cronológico") fazem referência ao "Entrudo". Já então, o termo, que significa "introdução", "intróito", pretendia designar esse momento festivo que antecedia o período de recolhimento quaresmal.

No decurso das centúrias de Seiscentos e Setecentos, o Carnaval seria celebrado múltiplas vezes. Essas celebrações foram, até ao século XIX, habitualmente caracterizadas pela violência e pela brutalidade, o que levou as autoridades a decretar numerosas portarias e alvarás, e mesmo a proibir a realização de alguns entrudos. No entanto, tal não impediu que, em 1786, o casamento do futuro Rei D. João VI com Carlota Joaquina desse origem a um Carnaval de arromba, no decurso do qual o Rio de Janeiro pôde assistir, pela primeira vez, segundo alguns, a um grandioso desfile de carros alegóricos.

O século XIX trouxe várias novidades: a máscara carnavalesca, na década de 30; o baile de Máscaras (o carnaval dos salões), no início da década seguinte; e o "bloco" de percussionistas, já no dialbar dos anos 50. Quanto a este último, desempenhou papel relevante o emigrante portuense José Paredes, que, a fim de evocar o Carnaval da sua terra, com os amigos percorreu as ruas, em 1852, surrando bombos e tambores.

O Triunfo do Samba

Na década de 20 do século passado, depois do fim da I Guerra Mundial e antes do início da Grande Depressão, um novo tipo de música, o samba, surge e toma conta do Carnaval. Ao que parece, terá evoluído a partir dos xotes e do maxixe, ao mesmo tempo que incorporava elementos de origem afro-brasileira. O novo estilo musical e os desfiles marcados pelo ritmo dos bombos levados por Paredes, a que a criatividade dos negros conferiu uma expressão artística até aí impensável, estão na origem dessa realidade hoje incontornável que é a escola de samba. A primeira a fazer a sua aparição foi a Deixa Falar, em 1928, mas viria a desaparecer logo em 1933. Desse primeiro arranque, sobrevivem ainda, e de boa saúde, A Estação Primeira da Mangueira, fundada em 1929, a Portela e a Académicos do Salgueiro, surgidas nos anos imediatos.

Em 1932, as escolas desfilaram pela primeira vez. Foi na Praça Onze, desaparecida nos anos 50, então situada não muito longe do actual Sambódromo. Nesse momento fundador do moderno Carnaval Carioca, foram 19 as participantes. Mas seria Getúlio Vargas, que dois anos antes liderara a revolução que pôs fim à "República Velha" e o alçara a Presidente da República, quem estabeleceria, em 1935, a regulamentação do desfile. As regras então impostas, que passaram a incluir nomeadamente a obrigatoriedade de os enredos tratarem assuntos nacionais, têm sido objecto, até hoje, de reduzidas oscilações. O samba, esse, entretanto, tornou-se rei e senhor do Carnaval.

Comemorando Vinte Anos no Sambódromo

O desfile deste ano encerrava variados motivos de curiosidade: comemoravam-se 20 anos de existência do Sambódromo (os cerca de 700 metros da Avenida Marquês de Sapocaí especialmente arranjados para a evolução das escolas), passavam 40 anos sobre a morte de Ary Barroso (um dos grandes vultos do carnaval do Rio) e escolas como Académicos da Grande Rio (com um samba-enredo centrado na prevenção da SIDA e no uso do preservativo) prometiam polémica quanto baste. Numerosas figuras do teatro, da música, da televisão, etc., marcavam presença, normalmente num dos oito carros das suas escolas de coração: Milton Nascimento, na Mangueira; Zeca Pagodinho e Paulinho da Viola, na Portela; Miguel Falabela, na Unidos da São Clemente; Xuxa, (cuja biografia foi mesmo tema do samba-enredo), na Caprichosos de Pilares; e toda uma lista interminável e também irreproduzível.

Coube justamente à São Clemente abrir o desfile de 2004 e, de facto, a sua Comissão de Frente irrompeu na Avenida pouco depois das 21 horas de dia 22 de Fevereiro. Esta honra, porém, parece não ter trazido sorte à escola de Botafogo, uma vez que ela se classificou em 14º lugar (o último) e caiu para a "2ª Divisão". A grande surpresa veio da Unidos da Tijuca (a escola da Barra, presidida pelo português Fernando Horta e a mais ligada à comunidade lusa), que ao apresentar-se na Marquês de Sapocaí com um samba-enredo inspirado nos feitos da Ciência, alcançou o 2º lugar.

A grande campeã foi, todavia, pelo segundo ano consecutivo, a Beija-flor de Nilópolis. Com um samba-enredo subordinado ao tema "Águas da Amazónia", que o carismático Neguinho da Beija-Flor entoou acompanhado pelos mais de 3000 integrantes, a escola fez erguer a arquibancada. Curiosamente, no momento em que, na madrugada do dia 24, a Beija-Flor deixava a concentração e entrava na Avenida cantando "água que mata minha sede e lava minha alma", o céu brindou a multidão com uma chuva que acompanhou os passistas de Nilópolís até à dispersão. Parecia planeado!

Este ano, também as pessoas com deficiência fizeram uma aparição em força no Sambódromo. Várias escolas incluíram nas suas alas passistas com deficiências diversas. Mas a Mocidade Independente de Padre Miguel, cujo samba-enredo versava os perigos do trânsito e alertava para a necessidade de prevenir os acidentes rodoviários, incluiu mesmo uma ala totalmente integrada por sinistrados da estrada, que desfilaram sobre riquechós. Em 2004, ficou evidente, também na Avenida, que, na alegria como na tristeza, entre os homens não existem seres menores.

A Bicampeã

A Beija-Flor não é uma escola qualquer. Com sede em Nilópolis, a escola encontra-se profundamente enraizada na alma dessa comunidade. Ser da Beija-Flor é quase uma religião, é uma paixão para toda a vida. Quem é da Beija-Flor não divide o coração com outra escola; o amor, apesar de imenso, só dá para uma. Para esse sentimento generalizado, não deixam certamente de contribuir os vários títulos conquistados nos últimos anos. Mas, para esse sentimento, tem vindo a contribuir também, em larga medida, o trabalho comunitário levado a cabo pela escola.

Nilópolis é um município da Baixada Fluminense que, nos últimos anos, tem vindo a merecer referências elogiosas por parte de organismos internacionais. Longe da preferência das elites, a cidade foi, mesmo assim, ainda recentemente considerada pelas Nações Unidas como a primeira em qualidade de vida e a segunda em educação, em toda a área da Baixada. A Beija-Flor, pelo trabalho de formação que quotidianamente desenvolve com a população local, lega a esta realidade um inestimável contributo. Poder-se-á mesmo dizer que, desse modo, a escola contraria as palavras do poeta, porque, afinal, em Nilópolis, nem tudo se acaba na Quarta-Feira.

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Última actualização efectuada em 13 Julho 2004
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