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GESTA-MP

Grupo de Estudos Sociais, Tiflológicos e Associativos

 

DESTAQUE

COOPERAÇÃO AO SERVIÇO DA PARTICIPAÇÃO

Rodrigo Santos e Teresa Nunes Teles

No Destaque deste seu terceiro número, Grande Angular aborda, de modo cruzado, dois temas de crescente pertinência na actualidade: a cooperação internacional no domínio da tiflologia, e a participação dos jovens (deficientes visuais) nos processos de tomada de decisão. O núcleo essencial da matéria exposta é constituído pelas ideias explanadas por Elena Salaberria Sanzberro (dirigente da Unidad Progresista e membro do Conselho Geral da ONCE), em entrevista que nos concedeu, aquando da sua participação, como prelectora, em 15 de Maio último, em Lisboa, numa acção de Formação Associativa destinada a jovens quadros do GESTA-MP.

Para se vislumbrar a importância do primeiro dos temas mencionados, atente-se no facto de que o mundo é hoje muito mais interdependente do que era há um século, as mudanças operadas não estão confinadas a nenhuma zona do globo, e é cada vez mais significativo o número de problemas que já não podem ser solucionados por intervenções de nível meramente nacional.
Como afirma Manuel Castells (sociólogo espanhol e grande especialista das relações entre tecnologia e sociedade), este sistema global emergente vai adquirindo uma estrutura de rede, a qual conecta tudo o que vale e desconecta tudo o que não vale ou se desvaloriza: pessoas, empresas, territórios e organizações.

A multilateralização das acções e a cooperação nas políticas constituem precisamente respostas indispensáveis, tendo em vista impedir essa desconexão e travar tal desvalorização.

Quanto ao segundo aspecto igualmente referido, tenha-se em linha de conta o progressivo mas contínuo fortalecimento da Sociedade Civil e das suas iniciativas cidadãs, no novo arranjo institucional que parece ir-se delineando à medida que as fórmulas democráticas "tradicionais" entram aparentemente em crise.

Para a concretização deste processo, a que Anthony Giddens chama, sugestivamente, "democratizar a democracia", as sociedades ocidentais têm, cada vez mais, vindo a considerar como fundamental e decisivo o papel da juventude. Todavia, numerosos estudos têm concluído que os jovens são hoje crescentemente marginalizados como produtores e integrados como consumidores, fenómeno que acarreta o reforço da sua subordinação social pelo óbvio retardamento da respectiva emancipação. Um tal paradoxo não pode deixar de colocar às organizações juvenis de hoje desafios particulares.

Três anos volvidos sobre a fundação do GESTA-MP, o movimento português, em parceria com o seu congénere espanhol (Unidad Progresista - UP), entendeu por bem promover a reflexão sobre estas questões, correspondendo deste modo à tentativa de promover o aumento da participação dos jovens no seio do movimento associativo de deficientes visuais, anunciada como uma das tarefas prioritárias da União Mundial de Cegos, quer pelo seu Secretário-Geral, Enrique Sanz, quer pelo Presidente do Comité de Juventude da organização, Mohammed Lotfy. Esta é igualmente uma preocupação da União Europeia de Cegos (UEC), que o seu anterior Presidente, o britânico John Wall, bem expressou, ao afirmar, no final do seu mandato: "O futuro da UEC está nos jovens".

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"O dia constrói-se, não se espera". A frase é de António Gedeão, mas bem poderia pertencer a Elena Salaberria Sanzberro, Secretária-Geral de Juventudes de Unidad Progresista (JUP), que fez dessa ideia a principal mensagem por si transmitida aos jovens portugueses que em Lisboa assistiram, em Maio último, à palestra que teve oportunidade de proferir no decurso de uma acção de Formação Associativa destinada a jovens quadros do GESTA-MP.

Natural do Euzkadi (País Basco), licenciada em Direito e falando fluentemente quatro línguas, Elena Salaberria, que a tudo isto alia uma simpatia natural e transbordante, afirma-se presentemente como um dos mais jovens e brilhantes valores do movimento associativo de cegos em Espanha.

Secretária-Geral de Juventudes de Unidad Progresista (JUP) desde o último congresso da secção juvenil da UP, é, simultaneamente, o mais jovem membro do Consejo General da Organización Nacional de Ciegos Españoles (ONCE), o órgão máximo daquela organização.

Pôr Mãos à Obra

Ao intervir, em Lisboa, numa acção de formação de jovens quadros do GESTA-MP, levada a cabo, em 15 e 16 de Maio, no âmbito da colaboração regular entre o GESTA e a UP, agrupamento que governa a ONCE há quase duas décadas, a dirigente espanhola pôs em destaque, na sua comunicação, a importância que atribui à participação dos jovens no movimento associativo de cegos.

Em entrevista exclusiva concedida a Grande Angular, esta ideia voltou a ser pedra de toque das suas declarações: "Nós, jovens cegos, somos escassos em número. Assim, ou nos pomos em contacto uns com os outros e nos unimos, nos colocamos questões comuns e reivindicamos coisas que nos afectam directamente, ou, seguramente, podemos bem ficar à espera que chegue algo que nunca vai chegar".

Absolutamente convicta da importância do papel que actualmente cabe à juventude na resolução dos problemas dos cegos, Elena evoca a sua própria experiência: "Para mim, essa importância é fundamental, é absolutamente capital. Estou a dedicar ao movimento juvenil, em Espanha, dez anos da minha vida, e isto dá uma ideia do que, para mim, ele significa". E, com coerência e simplicidade, expõe as razões de tal opção: "Acho que é importante que nos unamos e trabalhemos , pondo mãos à obra e indo sempre para a frente, lutando para suprir as nossas necessidades e para construir um futuro melhor". Iguais mas Diferentes

Em Espanha, é precisamente a JUP quem melhor assegura, desde há muito, as condições de participação dos jovens cegos no movimento associativo. Foi justamente com a finalidade de fomentar essa participação na vida política da Unidad Progresista e, através deste agrupamento, na vida da ONCE, que a JUP veio a ser criada, como Secção Juvenil da UP. Nessa medida, esta garante-lhe a autonomia funcional necessária para actuar (com respeito pelos estatutos da UP) no domínio dos assuntos especificamente juvenis, disponibilizando-lhe igualmente os instrumentos políticos e os recursos económicos indispensáveis.

Recorde-se que a Unidad Progresista, à semelhança do GESTA-MP, que exerce a sua actividade fundamentalmente no âmbito da ACAPO, é um grupo que desenvolve a sua actuação no seio da ONCE, prosseguindo ambos os grupos, como é sabido, objectivos similares.

Em Portugal, no entanto, jamais existiram estruturas juvenis formalizadas no âmbito do movimento associativo de cegos, embora, durante os anos 50, se possa documentar uma actividade associativa intensa por parte de muitos jovens deficientes visuais, a qual se veio a repetir, posteriormente, na década de 70. Neste último caso, essa actividade parece enquadrar-se numa vaga de fundo de intervenção juvenil que caracterizou o período. Note-se que, como salientam diversos estudiosos, o 25 de Abril de 1974 se encontra fortemente associado à juventude dos anos 70 (o próprio derrube do regime foi operacionalmente levado a cabo por "jovens capitães"), sendo mesmo esse momento de viragem da política portuguesa considerado, sob certos aspectos, como uma revolução de jovens.

Na comunicação que apresentou aos jovens do GESTA-MP, Elena Salaberria não deixou de levar em linha de conta estes factos e, nas suas declarações a Grande Angular, o tema voltaria a ser equacionado, tendo a Secretária-Geral da JUP então afirmado: "Eu diria que não copiem nenhum modelo, porque creio que nenhum modelo, e também o nosso (ou o que eu represento), é perfeito. Eu só acredito (e acredito firmemente) que nós, jovens, temos que trabalhar juntos por uma causa comum". E, na verdade, o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido conjuntamente pelo GESTA-MP e pela UP, tem permitido aprofundar a cooperação institucional entre os dois grupos, com respeito pelas respectivas identidades.

Diferentes mas Iguais

De qualquer modo, ambos os Estados ibéricos dispuseram, durante longo tempo, de condições políticas objectivas largamente adversas à participação. As ditaduras de Franco e Salazar engendraram sistemas políticos dos quais estavam ausentes estruturas participativas, ao mesmo tempo que estimularam uma cultura política de não participação. Para além disso, nas duas ou três últimas décadas, ambos os países viram igualmente este quadro ser reforçado por ideias neoliberais e neoconservadoras que procuram despolitizar determinadas questões supostamente "domésticas" ou "privadas", simples "imperativos de mercado" ou meros "problemas técnicos". As tradições de democracia e de participação livre e voluntária são, portanto, reduzidas, quer em Portugal quer em Espanha, e é natural que, lá como cá, surjam fragilidades, por falta de experiência ou de solidez institucional.

Por outro lado, em ambos os países da Península prevaleceram, em pleno século XX, sociedades em que a solidariedade foi deixada por conta da boa-vontade dos indivíduos, das famílias, das igrejas e de outras entidades não estatais, e em ambos o estado-providência e a organização dos grandes serviços públicos (saúde, educação, etc.) surgiram tardiamente. É neste contexto que assumem especial significado as seguintes palavras de Elena Salaberria, especialmente concedidas à Grande Angular: "Temos falta de muitas coisas, a sociedade deve-nos muitas coisas, e temos que reclamá-las, temos que trabalhar por isso; temos que aprender, temos de unir-nos".
E, com efeito, ainda hoje, por exemplo a despesa anual com a protecção social, em percentagem do PIB, é, nos dois países, a mais baixa da União Europeia, excluídos alguns dos novos aderentes: pouco mais de 20%, contra os quase 30% dos restantes Estados membros.

Paralelamente, como têm assinalado numerosos especialistas, os jovens de hoje organizam-se, em grande medida, em torno dos espaços de lazer, estruturando as suas actividades, em grande parte, à volta dos tempos livres. Este fenómeno não pode deixar de reflectir-se no desempenho das organizações de juventude. Na JUP, como explicou a sua Secretária-Geral na palestra que proferiu em Lisboa, ele não é ignorado, e a dirigente da secção juvenil da UP também não o esqueceu nas palavras que, através de Grande Angular, fez questão de dirigir aos jovens deficientes visuais portugueses.

Segundo ela, organizar-se, intervir, defender os seus direitos não implica dispensar os momentos de alegria e de boa disposição: "uma vez, alguém me disse que, tudo isto, havia que fazê-lo com bom humor e um sorriso. Eu também vos digo isso, também vos digo que trabalheis, que luteis, mas com bom humor, e não vos esqueceis do sorriso e de um pouco de farra que, de vez em quando, faz bem".

"P'rá Frente!"
Um Ideal Alegremente Partilhado

Nas declarações que prestou a Grande Angular, Elena Salaberria não escondeu ainda a sua satisfação por participar em mais uma iniciativa concretizada no âmbito da cooperação levada a cabo entre o GESTA e a UP: "Estamos encantados de ter podido vir: primeiro, porque Lisboa é uma das minhas cidades favoritas (é um sítio genial, precioso); e, segundo, porque se está muito bem entre vocês. É como visitar a família, uma grande família, uma família de gente que nos recebe estupendamente". E não deixou mesmo de dar conta do bom relacionamento vivido entre os dois agrupamentos ibéricos: "A verdade é que não sou só eu a dizê-lo: toda a gente que cá vem trabalhar convosco, regressa a Espanha encantada, e todos torcemos para que vocês nos voltem a convidar. Por isso, estamos encantados, fenomenais mesmo, de estar aqui convosco".

A concluir, a dirigente da Unidad Progresista expressou um desejo que é, simultaneamente, um reconhecimento do trabalho até agora desenvolvido pelo GESTA-MP, bem como um voto de incentivo para enfrentar os próximos desafios que se colocam ao movimento: "Digo-vos para irdes em frente, para defendermo-nos e para continuar a crescer".

Aos jovens deficientes visuais portugueses (e não só aos membros do GESTA-MP presentes na sessão), bem como ao movimento no seu conjunto, queda reservada, pois, a incumbência (considerável mas não menos aliciante) de corresponder ao desafio e não esquecer que, de facto, "O dia constrói-se, não se espera".

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Última actualização efectuada em 31 Agosto 2004
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