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Grupo de Estudos Sociais, Tiflológicos e Associativos

 

TRIBUNA

UMA FLOR AMARELA...
E DEZENAS DE MÃOS UNIDAS EM UM ELO DE FORÇA E TERNURA

Por Joana Belarmino

Os dois pés plantados nas duas metades do mundo. Éramos eu e um bando de outros turistas à espera do espolcar dos flashs, da fotografia emblemática, incapaz de enquadrar a misteriosa nuvem das recordações, dos pensamentos, ao modo de pássaros ao mesmo tempo prisioneiros e livres, no cenário de árvores, montanhas e vulcões.

Eu não podia deixar a cidade de Quito sem aquela fotografia. Ali plantada, os olhos a contemplar o sol do meio dia, como que adivinhando as montanhas atrás de mim, salpicadas de brancos de neve antiga, à espera de neve nova, ali plantada, a revisar os dias de Quito.

Quinze, dezesseis e dezessete de abril, e uma agenda a cumprir. Dezenove países de américa Latina enviaram representantes para o III Seminário Latinoamericano de Mulheres Cegas.

Desfizemos nossa bagagem num hotel simples e acolhedor, "el sies de deciëmbre ", com sua decoração rústica em madeira velha, seus quartos para duas e três e de pronto encontrei-me no meio do torvelinho do falar cubano, caldal de palavras amalgamadas, alegria de um vozear musical que me fez trautear a velha canção revolucionária, "...de cuba traigo un cantar... ".

Equador, sede do evento, pôde enviar representantes de quase todas as suas províncias. O grupo todo compunha mais de vinte mulheres, representantes de Timborazo, Cuenca, Guahyakil, e tantos outros pedaços de pátria de nomes tão sugestivos, entrelaçar de sílabas a revelar o lastro linguístico de etnias as mais variadas.

Apoiaram o evento, a União Mundial de Cegos, UMC, a DKBw e a Organização Nacional dos Cegos Espanhóis, Once, através da Fundação de apoio às Organizações de América Latina, Foal. A Federação Nacional dos Cegos de Equador, Fence, cuidou do apoio logístico, da recepção local e da elaboração de uma programação cultural.

Kicki Nordström, presidente da União Mundial de Cegos estava entre nós e abriu a programação das conferências, para falar acerca das organizações internacionais no campo da tiflologia: UMC, IBSA, ICEVI e IAPB.

Para além das conferências, nos dividimos em grupos de configuração do mapa geopolítico de américa Latina, para exercitar em grupos de trabalho, planificação de estratégias de acção, discutir a realidade organizativa das mulheres cegas na América Latina, ressaltar nossos pontos fracos, experimentar nossa força.

"...Nostra fuerza está en nuestra unión ". O lema apareceu em quase todas as falas. E porque esteve tão recorrente nos discursos, me fez pensar/sentir, que a América Latina é um grande continente irmanado em muitas contradições, desigualdades, injustiças. Me fez pensar/sentir que América Latina é um grande continente irmanado num coração que pulsa e inventa todos os dias um modo de recomeçar sua luta, "suya lucha", numa espécie de caminho entremeado pela alegria, "la voluntad", a persistência.

E ainda é longo o caminho desdobrado sobre nossas mãos, nos dias de quito. Em América Latina, a organização das mulheres cegas ainda é embrionária na maior parte dos países. Cuba tem sua organização nacional de mulheres cegas, multiplicada em núcleos locais que centralizam-se nacionalmente. Entretanto, em países como Argentina, Uruguai, a mobilização das mulheres ainda é frágil. As dimensões continentais do Brasil, a fragilidade de boa parte das suas associações locais, desencorajam a idealização e materialização de um movimento nacional organizado de mulheres cegas.

O movimento associativista dos cegos , em parte significativa do continente, ainda se caracteriza pela presença marcante dos homens. Para se ter uma idéia de tal realidade, a nova executiva da ULAC, eleita em seu VI Congresso, compõe-se de quinze homens e cinco representantes do sexo feminino.

As mulheres estão presentes nas associações, sobretudo nas cidades de médio e grande porte, mas em geral, não sentem a necessidade de organizar-se em torno de sua condição específica, e tão pouco são estimuladas por seus líderes associativistas.

Há no entanto, uma realidade difícil que foi relatada em Quito. Em muitas cidades, as mulheres não têm acesso a qualquer assistência. Perderam sua autoestima e muitas vivem confinadas em realidades familiares preconceituosas e discriminativas. Realidades familiares que emolduram estas mulheres em uma ditadura do "não pode ", a qual perpetua-se em outros espaços da sociedade e da cultura.

"Hay quy rebelarse, hay quy romper con esto e salir para la conquista de nuestros derechos de ciudadania ", testemunha Patrícia, representante do Paraguai.

Mas a questão do gênero é levada a sério por UMC e ULAC. Desde 1994, as organizações de cegos são estimuladas a enviarem aos eventos internacionais, delegações compostas por mulheres e homens. Foruns e Seminários de Mulheres são sempre eventos que precedem aos congressos internacionais das duas organizações.

À espera do flash, os pés plantados entre aquela fascinante linha divisória veio-me à cabeça um instantâneo do primeiro dia de seminário, da solenidade de abertura. Veio-me à lembrança o momento de haver tocado a flor amarela que todas nós recebemos na entrada do salão do evento.
Uma flor amarela, húmida do orvalho da manhã de Quito, um caulezinhho vigoroso a exbir ao mesmo tempo ternura e força. E pensei no mundo como uma semiose. Como um crescendo de signos que se entrelaçam, nos pontos mais imprevisíveis, e compõem sempre a mensagem a ser lida. Força e Ternura. Foi este o binômio que nos moveu nos dias de Quito e que nos deve impelir para a frente, sempre.

Nota da Redacção:

Joana Belarmino de Souza é jornalista e professora de Comunicação na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa - Brasil. É Mestre em Ciências Sociais por essa Universidade, desde 1997, e Doutora em Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.

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Última actualização efectuada em 31 Agosto 2004
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