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Grupo de Estudos Sociais, Tiflológicos e Associativos

Um Boneco para os Cegos

fonte: Jornal Expresso de 11 de Dezembro 04

Um boneco inovador apresentado em Espanha permite que as crianças se familiarizem com a linguagem Braille

Com os botões da camisa do Braillín pode escrever-se todo o alfabeto Braille

O Boneco Braillin

À primeira vista, o Braillín parece um boneco como outro qualquer. Cabelo loiro, sorriso aberto, calções azuis, meias vermelhas e uns sapatos que parecem desproporcionados em relação ao resto do corpo. E a camisa alaranjada também seria banal se não fossem os seis pequenos botões dispostos em duas filas verticais que fazem dele um brinquedo pioneiro em todo o mundo - é que sobre eles pode escrever-se todo o alfabeto Braille.

A iniciativa, apresentada recentemente em Espanha, nasceu na Argentina, pelas mãos de uma professora que trabalha com deficientes visuais, e foi premiada no Concurso de Investigação Educativa sobre Experiências Escolares, na modalidade de material didáctico, que a Organização Nacional de Cegos de Espanha (ONCE) organiza todos os anos.

A ideia agradou de tal forma aos responsáveis da instituição que estes não demoraram a associar-se ao Instituto Tecnológico do Brinquedo (ITB) espanhol e a um fabricante de brinquedos para fazer o primeiro boneco que ensina a linguagem dos cegos.

Para optimizar as qualidades formais, lúdicas e pedagógicas do produto, o ITB, que apoia o desenvolvimento do sector no país, pegou no protótipo inicial e testou-o em perto de meia centena de crianças, com idades compreendidas entre os 3 e os 10 anos.

O Braillin ao colo das crianças

Os jovens foram divididos em pequenos grupos, que incluíam sempre uma criança com deficiência visual, para assim avaliar melhor as capacidades de uso do brinquedo e identificar os tamanhos, texturas e cores mais adequados, bem como a pressão necessária que se deve fazer sobre os pontos (botões) de Braille. O processo envolveu ainda entrevistas a mais de 30 profissionais de diferentes disciplinas, incluindo professores, especialistas em pedagogia terapêutica, em jogos e brinquedos, psicólogos e outros educadores.

Na posse de todas as recomendações do ITB e da ONCE, o fabricante desenhou depois um novo boneco, capaz de responder a todas as necessidades e preferências do público a que se dirige. O brinquedo possibilita a qualquer criança, portadora ou não de deficiência visual, familiarizar-se com o sistema de leitura e escrita Braille, que é constituído por seis pontos dispostos em duas colunas verticais de três pontos cada, reproduzidos em relevo, para poderem ser lidos através do tacto. As diferentes combinações dos pontos permitem representar todo o alfabeto, distinguindo letras, números, pontuação e todo o tipo de caracteres especiais, como os que são usados na matemática, por exemplo, num total de 64 símbolos diferentes.

«Com o Braillín, queremos potenciar aquelas actividades e experiências que permitem o adequado desenvolvimento educativo, afectivo e social das crianças com deficiência visual e contribuir para que os restantes companheiros conheçam o código Braille e as regras básicas na relação com as pessoas que têm esse tipo de deficiência. E tudo isso através de uma actividade que é muito importante para eles: o jogo», afirmou María Luz Laine Mouliaá, directora de Educação da ONCE, na apresentação da iniciativa.

A responsável acredita que o boneco constitui um excelente recurso didáctico para o ensino pré-escolar e primeiro ciclo, uma vez que, além de actuar como elemento integrador e instrumento para a aprendizagem do Braille, também reforça a auto-estima e a autonomia pessoal, estimula o desenvolvimento sensorial e motor e permite trabalhar o esquema corporal e as noções espaciais e matemáticas.

As primeiras 3000 unidades do Braillín serão vendidas nas lojas da ONCE a um preço de 18 euros, mas o boneco poderá também ser adquirido gratuitamente por todos os estabelecimentos educativos que contem com uma criança deficiente entre os seus alunos. A ONCE, que apoia mais de 7500 dos 8000 estudantes cegos espanhóis, concederá ainda mais de 1100 bonecos entre os seus colégios e equipas específicas de Atenção e Educação Integrada de cegos e deficientes visuais.

Juntamente com o boneco será distribuído um guia didáctico com actividades para os professores realizarem nas aulas com todos os alunos, um alfabeto Braille, um «poster» e uma célula de pontos Braille.

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Última actualização efectuada em 19 Abril 2003
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