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Grupo de Estudos Sociais, Tiflológicos e Associativos

DESCOBERTA ESPERANÇA PARA OS CEGOS

Revista Focus nº 140 de 19 Junho 2002 | Secção Sociedade | pág. 102-104

[início do artigo]

O médico João Lobo Antunes operou em Lisboa oito cegos, que passaram a ver com um sofisticado aparelho electrónico.

Imagem de um utente (click na imagem para descrição)No dia 13 de Junho, o Instituto Dobelle, dos EUA, apresentou um novo aparelho de visão artificial, que pennite devolver a visão aos cegos. Os neurocirurgiões João Lobo Antunes e Domingos Coiteiro participaram na investigação, sendo os responsáveis pelas cirurgias de
implante do olho electrónico. O aparelho é ligado ao córtex visual do cérebro e a um computador.

Esta revolução na medicina foi anunciada em Nova lorque, durante a conferência da American Society of Artificial Intemal Organs. Ali foi revelada a identidade dos oito pacientes submetidos à cirurgia em Abril deste ano, no Hospital da CUF, em Lisboa, realizada pela equipa de João Lobo Antunes e Domingos Coiteiro. A operação tornou possível algo que julgavam ter perdido definitivamente: a capacidade de distinguir os objectos, com tanta definição que já lhes penmtiu guiar um carro, num circuito privado, numa quinta situada nos arredores de Lisboa.

Este sistema electrónico está a ser investigado há vários anos e o primeiro implante foi realizado há dois. Mas o rápido desenvolvimento da tecnologia trouxe progressos enormes.

William H. Dobelle revelou à Focus que "esta segunda geração de aparelhos permite um alargamento cinco vezes maior do campo de visão, o que torna estes doentes mais independentes". Também detectam os movimentos com maior facilidade, e identificam os contornos dos objectos: "Distinguem um indivíduo com roupas brancas, contra um fundo claro", explica o cientista. 

O primeiro dispositivo, implantado apenas no hemisfério direito do cérebro, tinha menos eléctrodos (64, contra os 100 actuais) a estimular aquela zona. à imagem de A estimularão do córtex visual, feita através deste processo, produz fosfenos - substâncias que geram no cérebro pequenos pontos luminosos, semelhantes à imagem de estrelas no céu. São eles que pemútem a visão. "Agora, os pacientes conseguem ver, aproximadamente, cinco vezes mais do que nos primeiros sistemas", garante Dobelle.

Esta última versão é mais desenvolvida do que a primeira, embora o funcionamento seja semelhante: uma câmara de vídeo digital, inserida na lente dos óculos do paciente, recebe as imagens e envia-as para um computador do tamanho de bolso, colocado no cinto.

A imagem é processada, determinando os eléctrodos a activar no implante do córtex visual dos dois hemisférios cerebrais, que consiste num cartão de plástico flexível com 100 eléctrodos, inserido num buraco de cinco milímetros aberto no crânio. Através deste estímulo, é produzido um padrão de pontos brilhantes, formando uma imagem (ver infografia). A operaçao dura quatro horas e é feita com anestesia geral.

Jens, de 39 anos, é um canadiano e ficou cego há 18 anos. Foi um dos pacientes a ser submetido ao implante, e até já consegue conduzir um carro (enfrentando algumas dificuldades em usar os espelhos retrovisores, por não terem uma definição de imagem apropriada).
Keith, Dennis e Gerald, os três ameiicanos, com 42, 27 e 77 anos, respectivamente, perderam a visão em circunstâncias diferentes, mas em todos foi implantado este sistema. Gerald, o mais velho, conseguiu ver fosfenos pouco depois da operação. Dos oito, apenas um não conseguiu evoluir a este ponto, uma vez que ficou cego ainda durante a infância, antes da parte do cérebro que processa as imagens estar totalmente desenvolvida.

Este é o resultado de uma pesquisa iniciada há 34 anos. Desde essa altura, contam com a colaboração de Jerry (o apelido não é divulgado), um paciente americano que ficou cego num acidente, em 1974, e que tem funcionado como "cobaia" humana nesta investigação.

Há dois anos, foi implantado em Jerry o primeiro dispositivo de visão artificial, No entanto, nessa altura, o estreito campo de visão e a baixa resolução das imagens permitiam identificar os contornos de objectos e pessoas, de uma forma menos definida, ou letras de cinco centímetros a metro e meio de distância (semelhante à imagem dos ecrãs gigantes dos estádios para mostrar a pontuação das equipas).

Todos os pacientes submetidos ao implante perderam a visão devido a acidentes e não doenças degenerativas e nenhum era candidato a transplante de retina. William Dobelle calcula que há menos de cinco por cento de cegos à espera de um transplante, mas, por outro lado, quase todos são candidatos possíveis ao implante agora apresentado. Até porque a intervenção nestes oito indivíduos sugere que nem a idade (27 aos 77 anos), nem o tempo de cegueira (dois a 57 anos) são, à partida, impedimentos para fazer o implante. Desde que o córtex visual esteja intacto, esta é uma das soluções mais viáveis e com maiores possibilidades de conferir alguma autonomia.

Permanece ainda o risco de infecção, uma vez que o interior da caixa craniana não está isolado do exterior, dado que a ligação dos eléctrodos é feita numa ficha aplicada no couro cabeludo. Além disso, há ainda a necessidade de um período de adaptação e de reaprendizagem de leitura, uma vez que os padrões de pontos que conseguem identificar são diferentes da realidade.

Porém, os avanços conseguidos com a aplicação desta nova tecnologia são inegáveis e já estão programadas para o próximo mês mais duas operações deste género.

Uma nova esperança para os cegos voltarem a ver.

Rita Pendos Duarte
[fim do artigo]

[caixa: José Arruda]
A associação de cegos quer apoio do Governo na compra destes aparelhos.
[fim de caixa]

[início de caixa: apoiar os cegos]
O presidente da Acapo quer que o Governo financie o acesso dos cegos ao "olho biónico".

Para José Arruda, presidente da Associação dos Cegos e Ambiíopes de Portugal (ACAPO), o olho biónico traz "uma nova janela de esperança" para os invisuais. "A bengala ainda é vista como um sinal de exclusão. A nova tecnologia permite ao cego uma vida autónoma, trazendo maior independência, auto-estima e confiança", explica José Arruda. O elevado preço do equipamento, cerca de 80 mil euros, condiciona o acesso dos cegos portugueses, pelo que o dirigente da Acapo apela à solidariedade do Governo: "O próximo Orçamento do Estado devia incluir uma rúbrica que permitisse dar aos cegos a oportunidade de experimentar a nova tecnologia." Apesar de não haver números certos, a Acapo estima que em Portugal deverão existir 20 a 25 mil cegos e 135 mil amblíopes (pessoas com graves problemas visuais). José Arruda salienta o papel do médico Lobo Antunes no desenvolvimento do olho biónico, que considera "um cidadão muito humano, que merece a nossa gratidão". 
J.C.M.
[fim de caixa]

[início de caixa: pioneiro]

O líder da pesquisa, William Dobelle, diz que o aparelho custa 80 mil euros.

[fim de caixa]

[início da caixa: testes]

Uma das dificuldades de quem usa o aparelho é a imagem dos retrovisores.

[fim da caixa]

[caixa: conquista]

Os cegos operados com este sistema conseguiram recuperar parte da visão e até conduzir um automóvel.

[fim da caixa]

[caixa: presentes em portugal]

Activo desde 1968, o Instituto Dobelle, de Nova lorque, também já está no nosso país.

Fundado por William H. Dobelle, em Nova lorque, o Instituto dedicou-se, desde 1968, à investigação da visão artificial para cegos. Desde logo, contou com a.ajuda de Jerry, um americano que ficou cego na sequência de um acidente. Em 1983, passou a funcionar também na Europa, contando, inclusivamente, com o trabalho de dois neurocirurgiões portugueses: João Lobo Antunes e Domingos Coiteiro. No início deste ano foi aberto um escritório do Dobelle Institute lnc., em Lisboa, facilitando, assim, a comercialização do dispositivo de visão artificial no nosso país. A empresa desenvolve ainda 'pacemakers', de forma a autonomizar a respiração de pacientes dependentes de ventilador.

[fim da caixa]

[caixa: neurocirurgião de ouro]

João Lobo Antunes, um dos responsáveis por esta pesquisa, é considerado um dos melhores neurocirurgiões do mundo.

Quando um dia perguntaram a João Lobo Antunes, professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa, o que lhe faltava para completar a carreira ele respondeu: "Morrer. Já fiz mais ou menos tudo o que pretendia. Não houve coisa que não tivesse feito." Há quem o considere vaidoso, mas mesmo esses não hesitam em colocá-lo no grupo dos melhores neurocirurgiões do mundo.

João Lobo Antunes, 58 anos, nasceu em Lisboa no seio de uma família burguesa. É o mais velho de seis irmãos - todos com carreiras de êxito: António é psiquiatra, escritor e eterno candidato ao Nobel; Pedro é arquitecto; Miguei é jurista; Manuel é diplomata; e Nuno é especialista em neurologia infantil.

Descobriu no liceu a vocação para química. Estava talhado para seguir os estudos no Instituto Superior Técnico. Durante as férias, a mãe ia com os irmãos para a Praia das Maçãs, nos arredores de Sintra - enquanto o pai, médico, permanecia em Lisboa por razões profissionais. João ficava com ele. Estudava e lia. No último ano do liceu, decidiu seguir medicina. Formou-se, em Outubro de 1968, com 19 valores. E acabou por seguir as pisadas do pai - a neurocirurgia.

Foi convidado, em 1971, para trabalhar na Universidade de Columbia, em Nova lorque, onde esteve durante 13 anos. A aprendizagem neurocirúrgica terminou em 1975.

A partir daí dedicou-se à investigação experimental. Regressou a Portugal em 1984.

É um trabalhador incansável - em 30 anos, operou perto de dez mil doentes. Tem 70 trabalhos científicos editados. E publicou três ensaios: um deles, Um Modo de Ser, deu-lhe o Prêmio Pessoa. 
M.C.
[fim da caixa]

[caixa: avanço médico]

Pormenor da ficha colocada no crâneo.A câmara que capta as imagens é ligada ao cérebro e a um computador portátil colocado no cinto do paciente.
[fim da caixa]

[esquema: olho electrónico: como funciona]

Os avanços tecnológicos permitiram que, através do implante de um "olho electrónico", alguns cegos recuperassem parcialmente a visão.

Esta tecnologia inovadora foi desenvolvida nos Estados Unidos, em colaboração com o neurocirurgião português João Lobo Antunes.

1. Câmara de vídeo digital

A câmara recebe as imagens e envia-as para o computador colocado no cinto.

1a. O campo de visão é bastante estreito, mas já permitiu guiar um carro num circuito privado.

2. Ligação ao computador, colocado no cinto.

2a. Um computador com tamanho de bolso processa a imagem a partir de uma pequena câmara de vídeo nos óculos do paciente, para determinar quais os eléctrodos a activar no implante cerebral. 

3. São implantados no cérebro 100 eléctrodos inseridos num cartão de plástico flexível.

3a. Os eléctrodos estimulam o cortéx visual do cérebro, produzindo um padrão de pontos brilantes. Os pacientes necessitam de reaprender a ver, pois a imagem que conseguem identificar é diferente da realidade - vêem figuras de baixa resolução, identificando apenas o contorno dos objectos. 
[fim do esquema]

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Última actualização efectuada em 19 Abril 2003
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