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Grupo de Estudos Sociais, Tiflológicos e Associativos

O invisual Augusto Hortas e a sua cadela-guia 

Os olhos meigos de Camila

Fonte: O MIRANTE - Jornal da Região do Ribatejo
25 DE JULHO/ 2002 PÁGINA 24
Legenda da foto: Para Augusto Hortas o cão dá mais segurança e é uma forma de sociabilização Camila entrou na vida de Augusto Hortas há três anos. Foi amor à primeira vista. Augusto é invisual e tinha contactado a Escola de Cães-guia da Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual, para encontrar um cão-guia. A cadela Camila já tinha dado umas voltas com dois cegos mas não tinha havido entendimento. Quando os dois caminharam lado a lado pela primeira vez o entendimento foi total. Ela é dócil e meiga diz o dono.

Há três anos que Augusto Hortas, um invisual de 51 anos, licenciado em Filosofia e técnico superior do Instituto de Formação Profissional de Alverca, é conduzido por uma das fêmeas treinadas até hoje na Escola de Cães-guia para Cegos de Mortágua, da Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual. 

Refugiada debaixo da secretária do gabinete de Augusto Hortas, onde está um computador com uma linha de braile auscultadores para ouvir o que está escrito, Camila mantêm-se atenta em quem se dirige ao dono. Augusto trabalha em rede e tem acesso à internet. O ecrã só é ligado quando alguém é recebido no gabinete. Desde que tem a Camila para o conduzir no dia a dia a vida de Augusto Hortas alterou-se. Tenho uma maior segurança e maior autonomia na mobilidade, garante. 

Para o cego fazer o percurso de casa ao trabalho é fácil, apesar de já ter tido um pequeno incidente. Caí do cais quando já tinha a Camila, mas a culpa foi inteiramente minha. A Camila parou no sítio certo e fez barreira para que eu não seguisse. Felizmente não houve problema nenhum. O dono de Camila explica que a dupla faz o percurso habitual de comboio sem problemas porque o cão limita-se a guiar, seguindo as instruções do utilizador. Só dizemos vai em frente ou à direita. Quando sai de manhã o trajecto normal é vir para o serviço. Se quiser mudar de trajecto tenho que lhe dar a ordem. Camila foi atribuída a Augusto Hortas depois de duas tentativas com dois utilizadores que não constituíram dupla com a cadela. Com Augusto e Camila houve uma empatia imediata. O carácter da Camila é muito dócil muito meigo, próprio da raça, mas por norma os cães ganham uma grande empatia por qualquer pessoa, descreve. Quando foi prestar provas à escola foi com a Camila que deu a primeira volta. A relação que se estabeleceu na dupla foi extraordinária e muito rápida. Hoje se Augusto se demora fora do gabinete quando regressa Camila já está à porta à sua espera. Duas semanas depois do estágio Augusto recebeu um diploma simbólico, o arnês, que funciona como instrumento de ligação do utilizador ao cão. Quando é colocado no cão ele assume-se para o trabalho. É através do arnês que nos apercebemos dos movimentos do cão porque a trela é muito flexível. Quando usa só a trela, Augusto costuma levar também a bengala. O uso do cão-guia dispensa a bengala, mas Augusto Hortas prefere prevenir-se. 

Se tiver que sair do gabinete e não levar a Camila levo a bengala porque há sempre obstáculos. Augusto lembra que não é bom abandonar definitivamente a bengala porque pode acontecer alguma coisa ao animal. A bengala também é um instrumento extraordinário de mobilidade, embora o cão supera tudo isso. Com o cão não precisamos de bater nos obstáculos para os detectar.

MOTIVO DE CONVERSA

Quando recebeu a Camila pressupôs que iria ter mais autonomia, maior facilidade de movimentos e mais segurança no caminhar, mas não imaginava que o cão lhe serviria como forma de sociabilização. Uma das surpresas para mim foi a relação que se estabelece com as pessoas. As pessoas passaram a falar mais comigo porque o argumento é o cão. Dizem que é um cão muito bonito e querem saber como se chama. Antes quando entrava com a bengala era mais um cego que entrava ali. Isso de certa forma funciona como maior integração social. Há uma maior aproximação por parte das pessoas que connosco se cruzam no dia a dia. O utilizador reconhece que ter um cão- guia é uma maior responsabilidade porque é um novo membro da família que entra em casa, mas acha que não é problemático. De manhã ponho-lhe a comida quando estou pronto vou escová-la ao terraço. À hora do almoço também costumo ir passear com ela, mas antes de a ter também saia. 

Augusto Hortas diz que Camila é um cão que se arruma facilmente no seu cantinho não perturba, mas lembra que é preciso que as pessoas que vivem na casa não podem ter alergias. Mas garante que os problemas não são nada quando comparados com aquilo de mais importante que o cão dá. Nada há que pague isso. É uma entrega total em troca de um mimo. 

Jornalista: Ana Santiago

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Como lidar com o cão e utilizador

Augusto Hortas queixa-se que há muita gente que não sabe lidar com pessoas cegas quando quer ajudar. Normalmente tentam agarrar quando não é isso que devem fazer. Devem perguntar se a pessoa precisa de ajuda e em vez de a agarrar ceder-lhe o braço para a conduzir.

Uma das coisas que as pessoas fazem não por mal, mas por ignorância é distraírem o cão. O animal vai em trabalho e não deve ser distraído, explica. Outro dos erros que não se deve cometer é dar comida ao cão. O animal tem que entrar em todo o lado e tem que se habituar a não comer em restaurantes por uma questão de hábito e por questões do próprio aparelho digestivo. Augusto Hortas lembra que as pessoas não devem perturbar o trabalho. É preferível perguntarem se podem fazer uma festa ao cão. Têm que perceber que aquele é um cão de trabalho com muita responsabilidade e há regras que devem ser cumpridas porque é a própria educação do animal que é posta em causa, realça.

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Três anos a treinar cães-guia

A principal actividade da Escola de Cães-Guia da Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual, em Mortágua, na Beira Interior, é o treino de cães-guia. A escola, criada há três anos, vive do apoio do Centro Regional de Segurança Social, da quotização, desenvolvimento de actividades e patrocínios. O cão, que custa à escola, cerca de 15 mil euros é entregue ao utilizador sem quaisquer encargos. O cego fica apenas com o encargo do seu sustento, do seguro de responsabilidade civil que a lei obriga e tratamentos veterinários. Augusto Hortas, membro da direcção da associação, adianta que em média tem um encargo de 50 euros por mês com Camila. A família do utilizador tem que aceitar o cão-guia e a própria residência tem que ter condições para acolher o animal. O tempo de espera para conseguir ter um cão-guia é actualmente de três anos. Existem cerca de 70 utilizadores à espera. A escola entrega uma média de oito cães por ano, mas para o ano poderão estar disponíveis 12 animais. Augusto Hortas acredita que com a vinda de um quarto formador para a escola o tempo de espera possa ser reduzido. 

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Última actualização efectuada em 19 Abril 2003
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