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GESTA-MP

Grupo de Estudos Sociais, Tiflológicos e Associativos

Ver com as Mãos no Museu do Carro Electrico

Por LUÍSA PINTO
in Jornal "O Público"

Domingo, 05 de Janeiro de 2003

[uma iniciativa GESTA-MP]

Foi ao som de um violino e da récita de textos coligidos por Hélder Pacheco que um grupo de cerca de uma dezena de invisuais intervalou ontem a descoberta de cada um dos muitos veículos que abrilhantam o Museu do Carro Electrico (MCE), no Porto. 

Não era a primeira vez que ali estavam, porque já são muitas as vezes em que aceitaram o convite da direcção do museu para ver o espaço e conhecer a sua história. "Sim, porque os invisuais também vêem e essa foi
a primeira das lições que aprendemos com eles. São eles que dizem 'eu também quero ver' ou comentam 'já viste a bolsa do guarda-freio?'"
, enfatiza Cristina
Pimentel, directora do Museu.

Ontem, foi-lhes dada a possibilidade de levar para casa a história dos veículos e as estórias dos que os utilizavam, para poder contar a outros, para relembrar, ou, tão-só, para guardar. A edição do Guia do Museu do Carro Eléctrico em Braille foi, de algum modo, a fórmula encontrada pelo MCE para mostrar que o trabalho com invisuais já é uma actividade regular do museu.

Garante Cristina Pimentel - e não custa nada acreditar - que os invisuais aprenderam tanto com os guias do museu, como estes com os primeiros. "Ninguém da nossa equipa tinha alguma vez trabalhado com esta comunidade. Mas tem sido muito gratificante", avalia a directora, evocando uma actividade iniciada no Verão de 2001. A direcção do museu tem vindo a convidar desde essa altura alguns invisuais para visitas regulares sobre temas variados, como, por exemplo, a temática das profissões necessárias ao funcionamento dos carros
eléctricos.

"Este é o Americano. É pequenino, só tem cinco janelas, está pintado de verde. A carroça é toda de madeira e o chassis é de ferro. Podemos entrar, e sentir o cheiro das palhinhas das cadeiras e do metal", começava por descrever a monitora dos serviços educativos do Museu, perante uma mais que interessada audiência onde dominavam bengalas e até uma cadela-guia. Foram as primeiras palavras que logo iniciaram uma interactividade muito especial com a plateia, que respondia de forma bem-humorada aos desafios que lhes apelavam à imaginação. Como o sítio do botão colocado estrategicamente à altura de um metro para os cobradores triarem a que crianças deviam ou não exigir bilhete. Ou, mais à frente, ver com as mãos o "Pipi", o primeiro eléctrico com características "anti-pendura", mais fechado nas partes laterais para impedir a criançada de se pendurar. Ou, logo ao lado, sentir as janelas do "fumista", ou o 351, um carro de
finais do século XIX que já se vestia de preocupações tabágicas, e tinha janelas amovíveis para os passageiros poderem fumar nos meses de verão. "Estou a falhar. Esqueci-me de vos dizer que os eléctricos não têm matrícula. Aqui têm um número: o nosso mais antigo é o 22. O Americano era o 8. Agora estamos no 351", redimia-se a monitora. 

"Ficámos muito sensibilizados com a maneira como estas pessoas nos recebem e pela disponibilidade que têm para nos mostrar as coisas. Nós, invisuais, temos a mania de nos queixar, e com razão, de que há poucas iniciativas culturais ao nosso alcance. Quando há uma instituição com esta disponibilidade e esta intenção, nós temos a obrigação de agradecer, de elogiar, e, claro, de aproveitar", sublinhou, no final da visita, Teresa Maia, uma bibliotecária de Coimbra
e também docente do ensino especial. Membro do GESTA (Grupo de Estudos Sociais, Tiflológicos e Associativos), uma associação destinada à comunidade invisual, Teresa Maia recomenda a visita ao MCE pelas peças que ali tem e pelas histórias que ali encerra. Porque tanto Teresa, como a restante comitiva de
visitantes, não precisam de ver com os olhos para conhecer os pedaços de história que têm defronte de si. Sente com as mãos e visualiza com a imaginação. Não viu as fotografias da antiga remise da Rotunda da Boavista, como não deve vir a ver a Casa da Música que lhe tomou o lugar. Mas, porventura, levará na memória uma imagem mais fidedigna do que foi aquele local do que alguém, dito com capacidades visuais, que não soube parar para a contemplar.

[fim do artigo]

Última actualização efectuada em 19 Abril 2003
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